
Mais do que representar a natureza, a exposição propõe senti-la, reconhecendo seus ciclos, ritmos e uma sabedoria muitas vezes invisível. O percurso expositivo se organiza como uma travessia simbólica: da escuridão à luz, do invisível ao revelado, do enraizamento à ascensão, da matéria à consciência.
Sob a curadoria de Valéria Scornaienchi, a mostra ganha uma camada dialógica que enfatiza a contemplação como prática de coexistência. “Ao adentrar aos ateliês das artistas, abre-se um espaço de olhar por perspectivas de aproximação e distanciamento das paisagens e dos fragmentos naturais como uma espécie de acolhimento da contemplação das existências naturais”, afirma. “O tempo impresso nas imagens é também o tempo necessário para um olhar atento e delicado sobre as vidas que pulsam de forma visível e invisível.”
No cerne da exposição estão dois eixos fundamentais, horizontalidade e verticalidade, que estruturam o diálogo entre as artistas. Claudia Oliva conduz o olhar pela expansão das florestas tropicais, explorando camadas de vida em composições que combinam pintura e bordado. Já Luciana Pinheiro instaura um eixo de ascensão a partir do ciclo vida–morte–vida do lótus, utilizando pigmentos naturais provenientes de diferentes geografias.
A curadora destaca como essas investigações se aproximam em um campo sensível comum: “Na busca de reconhecer a si mesma, Cláudia encontra uma linguagem que a compõe. Na busca do belo, abre um campo de contemplação, presença e silêncio, onde movimento, magia e mistério se harmonizam em um estado de pausa e delicadeza.” Sobre Luciana, completa: “No caminho silencioso de compreender a origem e os ciclos das plantas, ela mergulha na escuridão do lago para então submergir como quem alcança o invisível do ser, conectando-se a terras e águas que compõem suas práticas experimentais”.
Esse encontro entre vertical e horizontal cria um campo ampliado de percepção, onde micro e macro, visível e invisível coexistem. A exposição se constrói, assim, como uma ponte entre territórios e sensibilidades.
As obras instauram o que as artistas definem como “campos de manifestação”, ou seja, territórios nos quais o encantamento não é efeito, mas condição de presença. Nesse espaço, o espectador deixa de ser apenas observador para tornar-se testemunha.
Valéria Scornaienchi reforça essa dimensão da mostra: “Estamos todos compondo o planeta em dimensões aparentemente opostas, mas em profundidade falamos sobre a vida como possibilidade de habitar o mundo em harmonia, resiliência e afetos.” E conclui: “A contemplação afetiva e delicada proposta pelas artistas é um convite a adentrar a si mesmo e emergir das profundezas em estados de criação e silêncio interior”.
Para a exposição, a especialista em neurociência do olfato Estefânia Verreschi desenvolveu uma fragrância inédita inspirada no tema das artistas Claudia Oliva e Luciana Pinheiro: um perfume de terra molhada, evocando a memória primordial da relação entre corpo, natureza e origem. Integrado à experiência contemplativa, o perfume amplia a vivência sensorial, oferecendo ao público uma imersão que se desdobra também por meio do olfato.
Camila Russi
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