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Com abertura em 6 de outubro e visitação até 28 de novembro de 2026, a Galeria Estação apresenta a exposição Toda minúcia, segunda mostra individual do artista visual paulistano Andre Barion. Com curadoria de Amanda Tavares, a exposição reúne 27 trabalhos produzidos entre 2023 e 2026, vários deles inéditos, e ocupa o segundo andar e o mezanino da galeria. O texto de catálogo é do arquiteto, pesquisador e curador Omar Porto, que apresenta um retrospecto histórico da chamada arte-têxtil para contextualizar a produção de Barion na cena contemporânea.
A exposição chega num momento significativo da trajetória do artista, que completa dez anos desde sua primeira exposição, a participação na III Mostra de Projeções Fotoativa, realizada, em 2016, na Casa das Onze Janelas, em Belém. Desde então, Barion desenvolve uma pesquisa consistente e personalíssima, que parte das possibilidades pictóricas e esculturais dos materiais têxteis, cruzando costura, pintura e desenho. Toda minúcia é sua primeira individual em São Paulo e a segunda de sua carreira – a primeira foi a mostra Firulas, apresentada na galeria NONADA, no Rio de Janeiro, em 2023.
"Mais do que operar entre linguagens, Andre Barion trabalha justo no espaço em que essas fronteiras deixam de ser estáveis. No caso dele, uma linguagem acontece dentro da outra, e o que se produz não é exatamente uma fusão, mas uma zona de trânsito na qual os procedimentos permanecem reconhecíveis ao mesmo tempo em que, juntos, produzem efeitos inesperados. Nesse sentido, o procedimento que constrói os trabalhos é também aquele que desorganiza nossa tentativa de classificá-los", define a curadora.
Uma paleta de retalhos
O processo criativo de Barion começa muito antes da costura. O artista compra rolos de tecidos crus, pinta largas escalas desse material e só então o recorta em fragmentos que passam a funcionar como uma escala cromática. Esses retalhos são costurados, sobrepostos e, muitas vezes, reutilizados como estênceis. Sobre eles, veladuras constroem superfícies translúcidas e revelam a sutileza da luz.
"Todos os tecidos que uso vem de materialidades cruas. Compro rolos de tecidos diferentes, de gramaturas diferentes – jutas, brim, algodão. E então pinto metros e metros desse tecido. Minha paleta é essa", brinca o artista. "A costura é um processo muito rígido, muito projetual. Então eu fico sempre nessa busca de como me livrar da rigidez, de transformar o gestual numa coisa mais espontânea", complementa Barion.
O pesquisador Omar Porto situa essa operação num campo mais amplo, o das investigações têxteis, e propõe uma distinção: no trabalho de Barion, o tecido não se apresenta apenas como suporte, mas como matéria de pensamento pictórico.
"Há neles uma diferença em seu modo de lidar com o tecido em sua materialidade: Barion faz desse uso um processo de investigação no campo da pintura. Seu gesto de apropriação de tecidos, deslocados para o plano, passa por uma investigação a partir do desenho. No trabalho de Barion, os tecidos dão a textura e as linhas costuram o desenho; são uma construção de linguagem que instaura uma poética singular", afirma.
No texto, Porto aproxima o procedimento do artista ao de Henri Matisse, que "desenhava com a tesoura" em seus recortes de guache, e inscreve Barion numa linhagem brasileira do uso do fio que passa por Arthur Bispo do Rosário, Leonilson e Brígida Baltar.
Formas que migram
Os 27 trabalhos reunidos em Toda minúcia foram produzidos entre 2023 e 2026, com forte concentração nos dois últimos anos: 22 das 27 obras são de 2025 e 2026. A temporalidade recente faz da exposição um retrato do momento presente do artista. A variedade de escalas é igualmente notável. Há peças de pequenas dimensões, como A visão da crisálida (2025, 33 x 43 cm), e trabalhos de escala quase mural, como A caçada da sereia (2025, 140 x 290 cm) e Onde a alva dança (2026, 220 x 290 cm). A convivência entre esses extremos no espaço expositivo é parte da experiência que a mostra propõe.
A predileção por estruturas seriais também se evidencia. Três conjuntos se destacam: No alado florado da noite sem borboletas, sussurram rumores do por-vir, cujo título extenso remete ao universo das borboletas noturnas; Show das sombras, que reúne obras de paleta mais escura e atmosfera crepuscular; e Topiaria em quiasmo, cujo nome evoca ao mesmo tempo a arte de podar jardins e a figura retórica do cruzamento em X. As séries não funcionam como blocos estanques: as formas migram entre elas. Borboletas aparecem em Pegando borboletas (2025), Gaiola de borboletas (2025) e Catando borboletas, pescando flores (2026), como se o mesmo motivo atravessasse toda a produção. Flores e jardins comparecem em Três Figuras no Jardim (2024), Flor infiel (2023), Buquê (2025) e Luz de vitral no jardim, jardim de luz no vitral (2026).
Há ainda um terceiro campo de motivos, ligado ao corpo e ao cotidiano. Shorts com padrão azul (2023), Na risca do jeans (2026) e Check e joia (2024) remetem ao universo da vestimenta – não por acaso, o artista se interessou por moda na adolescência e juventude, chegando ao ponto de costurar suas próprias roupas ao longo de dois anos. Já Caiu na rede e peixe III (2026) e A caçada da sereia (2025) retomam o imaginário da pesca e da captura, dialogando com a ideia de rede que atravessa toda a exposição.
"Todos os trabalhos têm soluções de composição que vão se mesclando, e soluções estruturais também. As formas vão se imprimindo umas nas outras e vão tecendo uma relação que é quase como se elas fossem parte de um corpo maior", diz Barion.
Para Vilma Eid, sócia-fundadora da Galeria Estação, a chegada de Barion ao universo de artistas representados pela instituição tem um significado particular.
"A arte têxtil sempre me interessou. Adoro a Olga de Amaral e a Anni Albers – que são artistas que demoraram muito até ter um mercado e a serem conhecidas. Sônia Gomes, de quem tenho a mesma admiração, teve a primeira oportunidade de mostrar seu trabalho em São Paulo em uma coletiva da Galeria Estação. Quando entrei em contato com o trabalho do Andre, em uma visita ao seu ateliê, fiquei encantada ao ver um artista tão jovem trabalhando com tamanha personalidade, unindo tecido, costura e pintura com um domínio de processos que, assim entendo, estão no campo da arte contemporânea. De certa forma, Andre traz o têxtil para a contemporaneidade", afirma a galerista.
Num momento de reflexões ao completar dez anos de construção de sua poética, Barion destaca o simbolismo de apresentar Toda minúcia neste contexto de celebração.
"Gosto de pensar projetos maiores com coerência, e esse conjunto de obras apresenta ideias plurais com técnicas diferentes, assuntos e resoluções diferentes. É uma oportunidade inédita para mim – e estou curioso para ver como os trabalhos funcionarão juntos. Essa magia vai acontecer em breve na Galeria Estação", conclui Andre Barion.
Sobre Andre Barion
Andre Barion (São Paulo, 1996) desenvolve uma prática que articula desenho, costura, pintura e construção espacial, com superfícies construídas a partir de tecidos pintados, recortados e sobrepostos, desdobradas em trabalhos bidimensionais e tridimensionais. Integrante do Grupo Pineal, participou da 33ª Bienal de São Paulo – Afinidades afetivas (2018). Entre suas exposições recentes estão Delirium (Espaço Delirium, São Paulo, 2023), Doispontozero (C.A.M.A., São Paulo, 2023), PAURA (Era Gallery, Milão, 2023), A Palavra: Verso e A Palavra: Prosa (NONADA, Rio de Janeiro, 2022) e Firulas (NONADA, Rio de Janeiro, 2023). Foi residente do programa L.O.T.E. na Fundação Marcos Amaro (Itú, 2016 e 2018) e na Fazenda Serrinha (Bragança Paulista, 2017).
Sobre Amanda Tavares
Amanda Tavares é historiadora da arte, curadora e pesquisadora. Doutora e pós-doutora em História da Arte pela UERJ, consolidou uma trajetória transdisciplinar que interliga rigor acadêmico, coordenação editorial e práticas expositivas. Destacam-se em sua trajetória a assistência de curadoria na exposição Fullgás – artes visuais e anos 1980 no Brasil (CCBB, 2024–2025), a pesquisa e a coordenação de programas públicos na 22ª Bienal Sesc Videobrasil (2023–2024) e a coordenação editorial da 14ª Bienal do Mercosul (2025). Em 2026, foi anunciada como assistente de curadoria da 37ª Bienal de São Paulo, ao lado dos curadores-chefes Amanda Carneiro e Raphael Fonseca.
Sobre Omar Porto
Omar Porto é arquiteto, urbanista, pesquisador e curador. Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Santa Úrsula (USU-RJ), mestre em Artes Visuais (História e Crítica da Arte) pela UFRJ e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, investiga as práticas curatoriais e a história das exposições como dispositivos fundamentais para a construção da história da arte no Brasil. Atuou em projetos de curadoria, produção e montagem em espaços como o SARACVRA e o ecossistema cultural LANCHONETE <> LANCHONETE. Entre suas curadorias estão Rebento, ÁREA e A soma dos quadrados dos Catetos é igual ao quadrado da Hipotenusa.
Sobre a Galeria Estação
Com um acervo entre os pioneiros e mais importantes do país, a Galeria Estação, inaugurada no final de 2004 por Vilma Eid e Roberto Eid Philipp, consagrou-se por revelar e promover a produção de arte brasileira não-erudita. Sua atuação foi decisiva para a inclusão dessa linguagem no circuito artístico contemporâneo, ao editar publicações e realizar exposições individuais e coletivas sob o olhar dos principais curadores e críticos do país. O elenco da galeria vem conquistando também a cena internacional, com participações em exposições como Histoire de Voir, na Fondation Cartier pour l'Art Contemporain, na França (2012), e na Bienal Entre dois Mares – São Paulo | Valencia, na Espanha (2007). Emblemática desse desempenho foi a mostra individual Veio – Cícero Alves dos Santos, em Veneza, paralelamente à Bienal de Artes, em 2013. No Brasil, os artistas da galeria integram acervos de importantes colecionadores e instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo, o Museu Afro Brasil, o Pavilhão das Culturas Brasileiras, o Instituto Itaú Cultural, o SESC São Paulo, o MAM do Rio de Janeiro e o MAR.
Abertura: 6 de outubro de 2026, às 18h
Espaços expositivos: 2º andar e mezanino
Curadoria: Amanda Tavares
Texto de catálogo: Omar Porto
Telefone: (11) 3813-7253
Site: www.galeriaestacao.com.br
Instagram: @galeriaestacao














