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AINDA BEM
Quando acontece
inicia na Terça, 23 Junho
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21:00
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Local
Danielian Galeria (Jardim Paulista)
R. Estados Unidos, 2114 - Jardim Paulista, São Paulo - SP, 01427-002
Conteúdo
Em 1900, Manuel Teixeira da Rocha representou uma família observando Paris através da janela. A luz que invade o ambiente requintado — adornado por papel de parede, vasos de flores, brinquedos e mobiliário elegante — ilumina os olhares melancólicos de uma mulher branca e seus três filhos, confinados à domesticidade da vida familiar. Recobertos pelo fausto de suas vestes, os personagens manifestam, de modo silencioso e ambivalente, seu fascínio e apreensão diante da exterioridade que lhes chega sob a forma da paisagem envidraçada da cidade moderna. Trancafiados na segurança solitária de uma residência luxuosa, encenam as condições em torno das quais se constrói esta exposição: as estruturas de um mundo fundado na propriedade, na separação e no privilégio, orientado pela e para a burguesia.
A partir da experiência da Danielian Galeria com a arte situada entre o século XIX e início do XX, Ainda bem reúne alguns exemplares da pintura burguesa que adquiriu força política e simbólica no referido período. Trata-se de uma combinação entre retrato e pintura de gênero empenhada em consolidar um imaginário da classe urbana então ascendente, que — no Brasil, em especial em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo — buscava representar a si mesma como próspera, refinada e culturalmente vinculada à Europa. Através da sensibilidade habilidosa (e não raro criticamente ambígua) de artistas como Moreau, Amoedo, Papf ou Weingärtner, famílias e personagens burgueses emergem no abastado ambiente de salas, bibliotecas e ateliês, protagonizando uma arte de distinção social que hoje se vê confrontada por outros sujeitos, repertórios e projetos.
Tomamos como pano de fundo a recente emergência de práticas — ou, ao menos, de retóricas — voltadas à equidade de gênero, ao antirracismo, ao enfrentamento das desigualdades sociais e à responsabilidade ambiental, hoje bastante disseminadas pelo chamado mundo das artes. Talvez sintomaticamente, enquanto o planeta arde em guerras, colapsos climáticos e políticas de supremacia racial, em galerias, instituições, feiras, ateliês, coleções e universidades nutre-se a expectativa de que as antigas — e persistentes — tradições elitistas, racistas e patriarcais da arte estariam em crise e, enfim, em vias de dissolução. Portanto, é neste momento de intensificação da sensação de “fim do mundo” que evocamos o imaginário burguês para novamente expor e confrontar suas violências, nas quais a própria arte está implicada. Interessa-nos especular acerca do esgotamento histórico desse modo de organização social e de suas formas artísticas, conjurando a possibilidade de sua desintegração.
Informações adicionais
Curadoria por Clarissa Diniz
Contato
Direção:
nathalia.zemel@danielian.com.br
nathalia.zemel@danielian.com.br
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