
A colaboração se constrói no encontro entre arte e design, motivada por uma visão compartilhada, construída ao longo de anos de diálogo e amizade entre os autores. Ambos partem de um entendimento comum do desenho como exercício de síntese, no qual a forma surge das propriedades dos materiais e da clareza construtiva.
O nome Sobrepor faz referência tanto ao sistema construtivo empregado nas peças, estruturadas por camadas sucessivas de matérias sobrepostas, quanto à sobreposição de duas trajetórias que se encontram. A série assume a sobreposição como conceito, estrutura e processo, assumindo construção por acúmulo e desenho por subtração de excessos. O reaproveitamento surge como premissa central. Tótora converte papelão descartado, terra e água em uma matéria de alta densidade, resistência e caráter singular. Proveniente da coleta local na cidade de Maria da Fé, em Minas Gerais, o papelão estabelece uma relação direta entre o ateliê e o contexto urbano onde se insere. O material passa por processos de desagregação e reconstituição da fibra celulósica, sendo posteriormente moldado manualmente e submetido à secagem natural ao sol.
Quando aplicada em camadas sobrepostas, a matéria apresenta boa resistência à compressão, e o empilhamento remete à construção por acúmulo, estabelecendo também uma associação direta com os estratos do solo, em consonância com a natureza e a origem da matéria empregada. Nesse percurso, o gesto manual é preservado. Não há busca por homogeneidade absoluta ou acabamento idealizado. A matéria incorpora irregularidade, tempo e transformação como valores, conferindo aos objetos uma presença silenciosa e estável.
A terra, incorporada à mistura, atua como pigmento natural e contribui para a construção cromática da matéria. Conforme sua procedência em diferentes regiões do estado mineiro, apresenta variações sutis, conferindo tonalidades específicas a cada peça. Na troca entre autores, o desenho atua como matriz, organizando relações com outras materialidades, também provenientes de dinâmicas de reaproveitamento, como as madeiras de demolição. O traço essencial orienta proporções, define limites e articula os diferentes elementos. Materiais preexistentes retornam sob desempenhos e leituras formais diferentes, afirmando a transformação como método criativo.









