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Professor da UnB, Pedro Russi defende a pichação como arte urbana - Guia das Artes
Professor da UnB, Pedro Russi defende a pichação como arte urbana
Professor da UnB, Pedro Russi defende a pichação como arte urbana
O pesquisador explica que, apenas no Brasil, grafite e pichação se diferenciam artisticamente
inserido em 2017-01-27 11:24:53
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No segundo grau, Pedro Russi desenhava nos bancos da escola e nas paredes. Caminhava pelas ruas de Montevidéu – ele é uruguaio – anotando em um caderno as frases interessantes que via. Na universidade, adotou a lata de spray em percursos noturnos para grafitar. Nesta época, estudou Medicina, que abandonou para se dedicar ao teatro de rua – uma outra forma de interagir com o espaço urbano – e depois formou-se em Pedagogia. Já no Brasil, cursou mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação.

O caderno que usava para coletar o pensamento das ruas acabou virando material de estudo na pós-graduação. “Claro que não sabia que isso iria se configurar em um diário de campo, porque não era esse o interesse, mas foi o resgate dessa forma de realocar a cidade e entender que ela não é apenas o ‘algo’ rua, a estrada , a ponte. A cidade é a vivência que a gente tem neste espaço.”

Da pesquisa saíram os livros Paredes que falam: as pichações como comunicações alternativas e Grafitis – trazos de imaginación y espacios de encuentros (publicado apenas em espanhol). “Eu não escolhi o tema por ser legal. Os diferentes tipos de intervenção urbana – seja a pichação ou grafite, a feira, o teatro de rua, o fato de como eu observo as praças, a forma como as pessoas se apropriam dos lugares, como vão reconfigurando, como vão fazendo releituras – é algo que eu vivencio.”

Hoje, Pedro Russi é coordenador do curso de Comunicação na UnB. E acredita que a atitude subversiva de “pichador” se mantém ao provocar os estudantes a não se acomodarem a um sistema. “Às vezes um estudante brinca e fala: ‘Professor, você não mostra o caminho das pedras’. Eu digo: ‘Eu nunca vou mostrar o caminho das pedras, e ainda vou te jogar pedras no teu caminho’. Eu acho que essa é a função também da universidade”, destaca.

Qual a diferença conceitual entre grafite e pichação?
O Brasil é um dos lugares onde tem mais força a distinção entre pichação e grafite. Vou primeiro fazer uma distinção mais “de dicionário”. O grafite seria aquilo mais relacionado à arte, mais relacionado ao desenho, que tem uma história mais relacionada ao que seria o hip-hop, uma vertente que a gente chama de uma vertente mais americana, dos Estados Unidos. Eu discordo disso, mas estou simplesmente fazendo um esclarecimento de definição. A pichação seria aquele risco, aquela coisa que vai tentar brincar com a altura [quem picha mais alto]. Traz certos tipos de letras, formatos, cores, tipo de traço e velocidade na escrita. E a pichação, aqui do Brasil, teria essa característica mais do que é negativo, mais da poluição, eu brinco, mais de “atos de doença”. O pessoal coloca a pichação como uma doença que tem que ser exterminada e tem que ser extirpada. Essa distinção aqui no Brasil é uma distinção que faz um reflexo de classe. O picho é mais marginal, o picho é mais de uma classe social determinada e o grafite está numa outra classe social, numa elite. Tanto que quando a gente dialoga com o pessoal que está no grafite, na pichação, tende a haver uma distinção: ‘Eu sou grafiteiro, não sou pichador’.

Não importa que haja diversas outras situações ocorrendo na cidade. Podem ter mil, quatro mil pessoas morando na rua, mas parece que só a pichação é o que suja. Então, tem essa questão de extirpar essas marcas. A gente observa quando uma pessoa apaga uma pichação e deixa tipo um curativo, né? Uma coisa que é, como que extirpar um câncer. Tem uma questão de higienização aí: a pichação é suja, a pichação tem que ser higienizada.

 

Texto: Thaís Antonio

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