Carregando... aguarde
Que os astros nos salvem - Guia das Artes
Que os astros nos salvem
Que os astros nos salvem
Vetor estético do novo vídeo de Gaby Amarantos é referendado pelo afrofuturismo, que chega de maneira enfática ao pop nacional
inserido em 2021-01-27 13:30:09
Conteúdo

 

É comum, em inúmeras mitologias, a existência de deidades triádicas que se completam em uma tarefa contínua: a criação, a manutenção e a renovação do mundo. Em Vênus em Escorpião, novo trabalho de Gaby Amarantos, tal concepção naturalizada do ciclo da vida é encarnada pelo encontro entre três artistas de diferentes gerações: Ney Matogrosso, a cantora mineira Urias e a própria Amarantos, os quais, metamorfoseados em seres da floresta, representam essa função no videoclipe lançado em 27/11/20. A música é resultado também da parceria com os conterrâneos paraenses de Gaby Amarantos, os músicos Jaloo e Lucas Estrela, que transformam a batida do tecnobrega e seus riffs mesclados de guitarras alegres em um ritmo acelerado e raivoso. E com razão.

Saída do tecnobrega paraense e da mistura encantada da Floresta Amazônica, Gaby Amarantos implora aquilo que os astrólogos dizem significar a Vênus transitando pelo signo de Escorpião: transformação e justiça em um ano em que incêndios no Pantanal atingiram o inédito índice de 210% e as queimadas na Amazônia marcaram o maior registro de focos na história, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável por monitorar tais índices e que no governo Bolsonaro vem sofrendo sucateamento. Não à toa, quando o hit foi lançado, Vênus, o planeta do amor e da riqueza, transitava pelo signo de Escorpião. Os gritos de mudança para o Brasil vêm de todos lados, principalmente do Norte e do coração da Floresta Amazônica.

A amplificação do grito de Gaby Amarantos ficou a cargo do diretor João Monteiro, da dupla Os Primos, responsável pela estética LGBTQIA+ de toda uma geração de músicos surgidos a partir dos anos 2010, como Pabllo Vitar, Glória Groove e a própria Urias, que teve o trabalho Diaba, seu primeiro single, dirigido por Monteiro. É comum ver nos vídeos desse diretor uma estética drag, queer e barroca que dialoga com a tradição do brega brasileiro, mas em Vênus em Escorpião a roda gira, assim como o tom matreiro de Amarantos gira para uma Amazônia futurista e distópica (ou atual?). O vetor estético do videoclipe e de toda imagética do trabalho é referendado por uma espécie, se assim se pode dizer, de afrofuturismo, que finalmente chega ao pop nacional de maneira enfática. Tal fenômeno estético vem se infiltrando nas mostras de cinema do país há um bom tempo. É crescente o trabalho de cineastas que usufruem desse movimento, como, por exemplo, o filme Kbela (2015), da carioca Yasmin Thayná, no qual a diretora faz um mergulho ancestral e de empoderamento das mulheres negras, e também o surgimento de curadorias totalmente dedicadas ao tema, como as da pesquisadora Kênia Freitas, que tem pinçado na produção audiovisual brasileira trabalhos alinhados que podem ser chamados de afrofuturistas.

 

Esse renascimento do movimento que, segundo Freitas, é ainda desconhecido do público brasileiro, foi fortificado pela onda de protestos antirracismo que tomou conta do mundo nos dois últimos anos e, obviamente, vem reverberando na produção artística do país. Kênia Freitas, pesquisadora do tema, quando realizou uma curadoria de produções audiovisuais afrofuturistas de diferentes lugares do mundo (incluindo o Brasil) para a Mostra de Cinema de São Paulo, em 2015, afirmou em entrevista ao site Cinefestivais que o fenômeno nascido nos Estados Unidos é “um movimento estético, político e crítico plural e multifacetado, tendo como ponto comum uma narrativa alternativa e fantástica para as experiências das populações negras no passado, no presente e no futuro. Nesse processo, as obras misturam e são influenciadas por elementos da ficção científica, do hiper-realismo, da fantasia, das diversas mitologias de origem africana”.

É também inegável que o videoclipe Vênus em Escorpião bebe na fonte de artistas norte-americanas, como Janelle Monae e Erikah Badu, que também levaram para a música pop o afrofuturismo atualizado. Seguindo a cartilha do afrofuturismo de Gaby Amarantos, há a floresta e sua miscigenação: Ney Matogrosso, ora um Exu espacial, ora um Zé Pilintra; Urias, uma Uiara futurista e também uma entidade de umbanda; e, por fim, Amarantos interpreta uma Mãe Terra intergaláctica e também um Curupira vanguardista. Todos eles tentando salvar o mundo de um holocausto, em que a metáfora da vida é tudo aquilo que há de mais rico no Brasil: suas florestas, a água, a terra e sua gente encantada. Aqui, esse afrofuturismo à Brasil também deve algo à Tropicália e toda performática inovadora do grupo Secos & Molhados, que durante os anos 1970 arriscou-se à frente de vários artistas, que hoje bebem na fonte da androginia tribal da banda, e o vocal singular de Ney Matogrosso. Diferentemente da capa antológica do primeiro disco do grupo, em 1973, em que as cabeças eram servidas em uma mesa na sala de jantar, hoje Ney, Amarantos e Urias – outra tríade – têm suas cabeças servidas em embalagens industriais cheias de remédio, carne e glúten, de onde imploram amor para o mundo, sem o cinismo da sobrevivência que o período da ditadura pedia. Pois os tempos, infelizmente, pedem a urgência da Vênus em Escorpião como nunca antes na história.

 

Fonte: https://www.select.art.br/que-os-astros-nos-salvem/

Compartilhe
Comente
Últimos eventos
Qua
27/Jul
Bruno Almeida Maia , em entrevista para o GuiaDasArtes - Bruno Almeida Maia , ministrante do curso Constelações Visionárias , a relação entre moda , arte e filosofia nos concedeu a ótima entrevista que se segue :
Saiba mais
Sáb
31/Out
Pinacoteca: Acervo - A exposição “Pinacoteca: Acervo” é feita do acervo de arte brasileira da Pinacoteca, ocupa 19 salas do Edifício Pinacoteca Luz com cerca de mil obras de mais de 400 artistas.
Saiba mais
Dom
19/Mar
"Tempos Fraturados" - MAC-USP completa 60 anos com nova exposição
Saiba mais
Seg
30/Mar
Habitar São Paulo: relatos femininos - A exposição Habitar São Paulo: relatos femininos toma emprestado o olhar e a perspectiva de 10 escritoras que descreveram realidades e histórias tão particulares quanto universais, nos trazendo relatos sensíveis, trágicos, íntimos ou até engraçados, com o
Saiba mais
Qui
09/Abr
O artista visual Marcelo Rezende apresenta'Tratados Rompidos numa Distopia Tropical', no Centro Cultural Cândido Mendes, com curadoria de Denise Araripe -
Saiba mais
Sáb
11/Abr
Paulo Pedro Leal: trágico subúrbio - A primeira exposição institucional de Paulo Pedro Leal (1894 – 1968), pintor brasileiro autodidata, apresenta a obra deste artista que se dedicou à representação de cenas de guerras e conflitos sociais, de ritos da umbanda e paisagens rurais, e cuja vida
Saiba mais
Sex
03/Jul
Construir o Aberto, por Mariana Paraizo - Mostra leva ao interior do estado uma produção de arte contemporânea que já circulou por importantes instituições culturais no Brasil e no exterior.
Saiba mais
Sáb
04/Jul
UMA OBRA: PINTURA SEM FIM - Nova instalação interativa de Gui Teixeira transforma visitantes em coautores de uma pintura em permanente construção; programação especial de julho reúne oficinas, visitas educativas e atividades para crianças e famílias
Saiba mais
Qui
09/Jul
Cidade Líquidas - Rio, Paris, Café -Jérôme Poignard apresenta a nova exposição 'Cidade Líquidas - Rio, Paris, Café', no Bar dos Descasados do Hotel Santa Teresa MGallery
Saiba mais
Sex
17/Jul
Além da Fantasia – Yoshitaka Amano- Reunindo 218 obras originais vindas diretamente do Japão – além de uma experiência imersiva desenvolvida especialmente para a mostra –, a exposição apresenta um amplo panorama da produção de um artista que ajudou a redefinir a estética da fantasia contemp
Saiba mais