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Celebração ao Judaísmo na pintura de Lasar Segall - Guia das Artes
Celebração ao Judaísmo na pintura de Lasar Segall
Celebração ao Judaísmo na pintura de Lasar Segall
Após uma vida no colecionismo de obras de arte, dedicada também à catalogação sistemática e registro memorialista de artistas plásticos, pela primeira vez, deparei-me com uma pintura, de modo inebriante, assim rica em significado.
inserido em 2019-10-24 20:17:53
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Após uma vida no colecionismo de obras de arte, dedicada também à catalogação sistemática e registro memorialista de artistas plásticos, pela primeira vez, deparei-me com uma pintura, de modo inebriante, assim rica em significado. Por certo que, quando o assunto é religião, antigos utensílios e objetos de culto, ainda que não mais utilizados em rituais, podem manter o mistério e a beleza plástica, convertendo-se em verdadeiras obra de arte. Não obstante, a pintura de Lasar Segall sobre a qual desejo tecer algumas digressões, mantém a capacidade de nos conectar ao Divino, tal qual um objeto sagrado, mesmo não tendo sido utilizada em quaisquer cultos. Há, ainda, importantes aspectos históricos sobre emigração judaica no Brasil. Mas, sobretudo, salta aos olhos a importância desta pintura em face do Modernismo brasileiro, já que fora concebida em 1925, apenas três anos após a celebradíssima Semana de Arte Moderna.
 
Diariamente, religiosos judeus no mundo todo, em suas rezas matinais, fazem uma benção e, em ato contínuo, cobrem-se com o denominado “Talit Gadol” (manto religioso com listras e franjas nos quatro cantos), enaltecendo o Todo Poderoso e dizendo: “Tu te vestes com majestade e esplendor”. Rezam as tradições judaicas que Moisés pediu para ver a face do Eterno, que lhe respondeu negativamente, dizendo que homem algum poderia vê-lo de frente e continuar vivendo. Ordenou, então, que Moisés se escondesse na fresta de uma rocha e, logo após o Eterno ter passado, poderia sair e vê-lo apenas pelas costas. O significado religioso, amplamente difundido, desta passagem, é de que não podemos ver a essência do Divino (seu rosto), mas podemos, ao menos, perceber seu vulto (sentir sua presença). Nesta famosa passagem, plena de significado, o Todo Poderoso vestia um “Talit Gadol” exatamente como o da pintura, como é lido na oração matinal: “envolto em luz como uma roupagem”.
 
Depreendemos, pois, que o momento retratado na obra de Segall é de orações. Nota-se, também, a ausência de “Tefilin” (duas pequenas caixas de couro que contém pergaminhos sagrados e que são colocadas diariamente no braço, próximo ao coração e, também sobre a testa, alinhando assim sentimentos e pensamentos nos momentos de oração), fato que induz se tratar do dia de “Shabat” (sétimo dia da semana, dedicado ao descanso, onde tais caixas com pergaminhos não são utilizadas). A mão esquerda da personagem segura as franjas do referido manto (“Tsitsit” - feitas de cordas, onde cada nó simboliza uma das obrigações da Torá, as denominaras “Mitsvót”). Aqui uma nova sugestão: retrata-se o exato momento das bênçãos prévias à importante oração do “Shemá Israel”, titulada “Ahavat Olám”, posto que, ao recitar o trecho “Traze-nos dos quatro cantos da terra”, juntam-se tais franjas do Talit, permanecendo assim seguras na mão esquerda, aguardando o momento em que devem ser observadas e beijadas, durante a leitura do parágrafo denominado “Vaiômer Hashem”. Sugestões que, desde logo, captam a atenção, criando fascino não só naqueles que possuem alguma familiaridade com as orações judaicas. Pintura instigante.
 
Feitas tais constatações, pergunta-se: seriam estas as únicas conclusões que um observador atento poderia obter? Ledo engano. Ainda nos aspectos de natureza religiosa, cumpre-nos registrar os textos selecionados por Segall e que figuram no livro por ele retratado, localizado na mão direita da personagem. Do lado direiro do livro, consta um versículo do “Tehilim” (livro dos Salmos), 53:3: "Dos céus o Eterno perscruta os homens para verificar se alguém se preocupa em buscar a D'us". Já do lado esquerdo do mesmo livro, consta parte de uma Mishná do “Pirkê Avot” (Ética dos Pais) 3:10: “... todo indivíduo que seus semelhantes não se comprazem com ele, D'us também não Se compraz com ele". Na linha de baixo, o pintor escreve seu próprio nome: [Las]ar Segall, assinando assim tal pintura com letras do alfabeto hebraico.
 
Além de tantos tesouros religiosos, tão magistralmente representados na pintura, há aspectos ligados à história do Modernismo no Brasil. O Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, através de exames laboratoriais não invasivos, constatou que a pintura atual (datada de 1954) sobrepõe-se a outra, uma primeira versão (de 1925), feita apenas três anos após a celebradíssima Semana de Arte Moderna. As imagens desta primeira versão estão depositadas no Museu Lasar Segall, no próprio Iphan e, ainda, no acervo documental do então MinC - Ministério da Cultura. 
 
Cabem aqui, algumas reflexões. Do ponto de vista da documentação do desenvolvimento do movimento Modernista, o quadro ganha agora relevância histórica. Pictoricamente também, posto que revela um Lasar ainda tímido em 1925, época onde Tarsila do Amaral e Anita Malfatti já se arriscavam em obras audazes. Depois, em 1954, quando revisita sua obra, um Lasar Segall mais maduro, já consagrado, reveste tal pintura com o mistério e o fascínio atuais, deixando-a absolutamente deslumbrante. 
 
As digressões acima já seriam mais que suficientes para desnudar a importância desta obra. Não obstante, há ainda os aspectos inerentes ao processo de imigração da Família Segall. 
 
Consta que o lituano Lasar Segall, nasceu na pequena cidade judaica de Vilna em 1889. Filho de Esther Ghodes Glaser Segall e Abel Segall. Lasar era o sexto filho da numerosa família. Seu pai, Abel, além de negociante, exercia a função de “Sofer”, escriba da Torá, portanto alguém de ampla vivência religiosa. Ocorre que a Família Segall é muito antiga, tradicional naquela região, havendo episódios relatados em livros bastante difundidos. Note-se, por favor, que na versão de 1925, o religioso estaria em um ambiente externo. Já a versão de 1954, o religioso, que agora ostenta feições próximas dos traços fisionômicos de seu pai Abel, está agora em uma biblioteca, com livros judaicos ao fundo e uma discreta cortina no lado esquerdo da tela. Esta é justamente a ambientação clássica das obras da região de origem da Família Segall, onde os grandes mestres e rabinos eram assim representados. Salta os olhos a semelhança da ambientação de fundo com a obra denominada “Gaon de Vilna”.
 
Tudo isso somado, tem importância, não só como símbolo da imigração judaica no Brasil, mas relevância mundial em face da religiosidade judaica ali tão lindamente representada. E, até mesmo para aqueles atentos aos números, “cinco” está presente nas duas versões: 1925, 1954. Os segredos e riqueza de conteúdos ocultos dessa deslumbrante obra, como tradições, leis e costumes, que governam a vida prescrita pela Torá, são, assim, aos poucos, reveladas e trazidas à luz, registradas em um primor de pintura. 
 
Estamos no período das grandes festas e, hoje propriamente dito, inicia-se o jejum de Yom Kipur. Assim, imbuído no espírito desta obra prima de Segall: Gmar hatimá Tová - que sejamos todos inscritos no livro da Vida e da Paz.
 
 
por Pedro Mastrobuono
-Presidente do Instituto Volpi
-Conselheiro do Projeto Leonilson

Imagem de Obvio

 
 
 
Créditos das imagens :
Sérgio Guerri 
Museu Lassar Segall
IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e artístico Nacional
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