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Campo expandido - Guia das Artes
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Com transmissão online, a colisão dos carros da performance Cru, de Paula Garcia, aponta para o futuro da arte em tempos de pandemia
inserido em 2020-03-19 18:08:31
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Desde que o coronavírus impôs o isolamento social, a tensão tomou a cidade e esvaziou suas ruas. Talvez por isso, o trecho mal-iluminado que dava acesso ao espaço Arca, na Vila Leopoldina, em São Paulo, estivesse semideserto nesta terça-feira, 17/3, às 19h.

O silêncio também havia tomado conta do local onde, inicialmente, estava previsto um público de até 250 pessoas. Ali, cerca de 30 apenas – entre equipe de filmagem, paramédicos e bombeiros – esperavam pela performance Cru, de Paula Garcia, que consistia em uma colisão entre dois carros, sendo um deles dirigido pela artista.

Meia hora antes do início da ação, os únicos ruídos que se ouviam no galpão com 9 mil metros quadrados e pé direito alto vinham do escapamento dos carros da marca japonesa Mazda e da máquina de fumaça que tornava o ambiente ainda mais fantasmagórico. A ausência do público, que foi desconvidado para o evento com apenas um dia de antecedência por conta das orientações para conter o avanço do coronavírus, tornava mais tensa a espera pelo que estava por vir.

Ainda que Paula estivesse se preparando para o trabalho há cerca de sete anos, período em que fez treinamentos com dublês de cenas de ação, e os carros fossem modificados para aumentar a segurança – com cintos de cinco pontas, como os usados por paraquedistas –, essa seria a primeira vez que a artista iria de fato colidir. No período de preparação, no qual Paula foi acompanhada pela equipe da Dublês Brasil, empresa que indicou o motorista do segundo veículo, os testes contavam apenas com simulações.

 

Para a artista, que já chegou a passar oito horas diárias, durante dois meses, arremessando sucatas de até 20 quilos em um espaço com paredes imantadas, a nova empreitada poderia ser vista como uma atualização do conceito de performance de longa duração, ainda que a colisão de Cru não chegue a durar um minuto. O tempo prolongado, nesse caso, envolve o período anterior à ação: toda a preparação necessária para que o acidente saísse da forma planejada, com velocidade que não deveria passar de 40 km/h e uma trombada na qual os dois veículos fossem atingidos de forma lateral, nas portas dos passageiros.

A ausência do público – uma dado não calculado, nesse caso – também colocou a performance em um novo contexto, evidenciando ainda mais uma questão que vem sendo discutida na arte contemporânea de forma geral, mas, principalmente, no campo da performance: a substituição da arte propriamente dita por sua documentação. Esse deslocamento, segundo o filósofo Boris Groys, representa uma mudança recente no mundo da arte, que transferiu seu interesse do objeto artístico para os documentos acerca de sua produção.

Quando pensamos em ações perfomáticas, no entanto, por mais que as exposições apresentem de forma recorrente fotografias, vídeos e instalações como ponto de acesso ao evento performativo que muito provavelmente não voltará a se repetir, muitos artistas e teóricos são partidários do pensamento de que a documentação não consegue reproduzir o impacto causado pela ação in loco.

Mas diante da restrição de público, no caso de Cru, a única opção possível foi transmitir a ação ao vivo no site do Instituto Marina Abramovic (MAI). E se o efeito da colisão dos carros a poucos metros da batida não foi o mesmo para quem presenciou a ação no conforto do sofá de casa, é possível inferir que, ainda que a angústia não tenha sido próxima, o estado de ânimos diante da pandemia em que vivemos não deixou nem mesmo o sofá tão confortável, como se a realidade funcionasse para a performance de Paula Garcia como campo expandido.

Sobre as diferentes experiências, a crítica de arte Amelia Jones já chegou a argumentar que o acesso a uma performance por meio de vídeos, fotos ou textos não é menos verdadeiro do que estar em uma pequena sala diante do artista. De acordo com ela, não existem formas privilegiadas de apreensões, mas apenas diferentes apreensões.

Para além da percepção dos espectadores, no entanto, o que o episódio da performance Cru nos mostra é que, em tempos de coronavírus, os parâmetros que regem a própria ação podem ser modificados. Em uma transição de fases, Paula Garcia ainda contou com estrutura e equipe, mas a tendência é que os encontros, mesmo em grupos pequenos, passem a ser cada vez mais restritos, e que os espaços fechem não apenas para o público, mas para os próprios eventos. Diante desse contexto, não há como não lembrar dos primeiros trabalhos de videoarte no Brasil, com artistas como Letícia Parente utilizando o próprio corpo em confronto direto com a câmera: o vídeo como único dispositivo de registro do gesto. Se o caminho for esse, a diferença, nos novos tempos, é a possibilidade da transmissão em tempo real.

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