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BANDEIRA 'ÍNDIOS, NEGROS E POBRES', DA MANGUEIRA, VIRA PEÇA DE MUSEU - Guia das Artes
BANDEIRA 'ÍNDIOS, NEGROS E POBRES', DA MANGUEIRA, VIRA PEÇA DE MUSEU
BANDEIRA 'ÍNDIOS, NEGROS E POBRES', DA MANGUEIRA, VIRA PEÇA DE MUSEU
A partir desta quinta-feira (28), peça criada pelo carnavalesco Leandro Vieira estará exposta para visitação no MAM do Rio.
inserido em 2021-02-02 16:58:46
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Da Sapucaí para o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM).

O destino, um tanto quanto incomum, surgiu no horizonte de uma peça criada pelo carnavalesco Leandro Vieira. Em 2019, ano da conquista de seu bicampeonato com a Mangueira, ele encerrou o desfile “História para ninar gente grande” com uma bandeira do Brasil estilizada. No lugar do verde, amarelo e azul, via-se o verde e rosa da Estação Primeira, e substituindo a frase “ordem e progresso” estava a inscrição “índios, negros e pobres”.

A partir desta quinta-feira (28), a peça “Bandeira brasileira”, já tão fotografada e compartilhada nas redes, poderá ser vista de perto novamente, dessa vez pelo visitante do MAM. Ela foi devidamente instalada no paredão do Salão Monumental e seu desembarque na instituição faz parte do programa “Saberes da Mangueira”, que ocupa até março o museu com palestras e oficinas sob curadoria do próprio Leandro.

Dois anos após desfile campeão, 'Bandeira brasileira' vira peça de museu Foto: Fabio Souza / MAM Dois anos após desfile campeão, 'Bandeira brasileira' vira peça de museu Foto: Fabio Souza / MAM

Para ele, este é mais um passo importante no estreitamento entre o dito meio “tradicional” das artes e o carnaval.

— Acho que nesse momento de não-folia e de lutas pelo reconhecimento da atividade, é muito bacana um artista que cria exclusivamente para o carnaval ganhar espaço na arte contemporânea. O registro dos trabalhadores instalando a bandeira aqui no MAM transmite a ideia de uma nova ordem, a construção de um novo Brasil.

Elogios de Caetano

Em 2020, Leandro foi indicado ao Prêmio Pipa e, assim sendo, pela primeira vez em 11 anos um carnavalesco pôde ver seu trabalho incluído em um dos catálogos mais prestigiados sobre arte contemporânea.

Tantas conquistas chamam atenção e geram orgulho até de célebres amigos do artista, como Caetano Veloso, que desfilou em 2016 pela Mangueira na apresentação campeã em homenagem à irmã, Maria Bethânia, com enredo assinado por Leandro.

Dois anos após desfile campeão, 'Bandeira brasileira' vira peça de museu Foto: Fabio Souza / MAM Dois anos após desfile campeão, 'Bandeira brasileira' vira peça de museu Foto: Fabio Souza / MAM

Caê classifica como “magnífica” uma obra que consegue verter a bandeira brasileira numa peça em verde e rosa, e sem uma frase positivista como “ordem e progresso”.

— No desfile, a bandeira ressaía como uma obra de arte subversiva. No museu, concentra sua mensagem, dá tempo a quem olha para meditar sobre o carnaval e o Brasil, sobre a arte e sua função na história. — analisa o cantor — O verde-e-rosa salva o verde-e-amarelo, reaviva-o e chama-o para seu próprio lugar.

Do parangolé ao bandeirão

A instalação da “Bandeira brasileira” de Leandro também dialoga com a mostra “Hélio Oiticica — A dança na minha experiência”, em cartaz no MAM até março. Em 1965, passistas e ritmistas negros da Estação Primeira não puderam entrar no museu quando Oiticica tentou apresentar seu “Parangolé Mangueira” nos salões do espaço durante a abertura da histórica exposição “Opinião 65”.

Leandro acompanha a instalação de sua 'Bandeira brasileira' no MAM Foto: Fabio Souza / MAM Leandro acompanha a instalação de sua 'Bandeira brasileira' no MAM Foto: Fabio Souza / MAM

Para a crítica e curadora de arte Daniela Name, as peças de Leandro e Oiticica têm uma relação intrínseca, o que só chancela ainda mais o hasteamento do bandeirão no MAM.

— Tanto os parangolés quanto a bandeira são experiências de pintura animadas pelos corpos. — diz Daniela — Elas vivem a partir da dança e do samba, e por isso é tão desafiador exibi-las em um museu.

Entre a arte que tradicionalmente ocupa instituições como o MAM e aquela produzida na Sapucaí existe uma fronteira que pode ser apagada gradualmente. Segundo o mestre em Arte da Uerj, curador e escritor Leonardo Antan, o nome de Leandro Vieira é essencial para este processo de apagamento.

— "Bandeira brasileira" é uma das grandes obras de arte dessa década, não só pela força do desfile que conseguiu o título, mas por todo o alcance que teve além dele, se tornando uma imagem e símbolo político muito forte. — diz Antan, que também é editor do site Carnavalize — É uma operação simbólica de reconstrução da bandeira brasileira.

'Bandeira brasileira', de Leandro Vieira, agora pode ser vista de perto no MAM do Rio Foto: Fabio Souza / MAM 'Bandeira brasileira', de Leandro Vieira, agora pode ser vista de perto no MAM do Rio Foto: Fabio Souza / MAM

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Matéria de Pedro Willmersdorf publicada originalmente nos site do jornal “O Globo”, em 28/01/2021.

Fonte: https://www.mapadasartes.com.br/#!/noticia/3091

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