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De tensões diplomáticas a segurança reforçada, a 'megaoperação' montada pelo Louvre para realizar mostra de Da Vinci - Guia das Artes
De tensões diplomáticas a segurança reforçada, a 'megaoperação' montada pelo Louvre para realizar mostra de Da Vinci
De tensões diplomáticas a segurança reforçada, a 'megaoperação' montada pelo Louvre para realizar mostra de Da Vinci
Para realizar a exibição pelos 500 anos da morte de Da Vinci, Louvre teve de driblar crise diplomática com a Itália e aguardar decisão da Justiça do país.
inserido em 2020-01-29 14:07:00
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Crise diplomática, incertezas até os últimos instantes em relação ao empréstimo de obras, intervenção na Justiça, além de dificuldades técnicas são alguns dos problemas enfrentados pelo Museu do Louvre, em Paris, para organizar a exposição do artista italiano Leonardo da Vinci, uma retrospectiva por ocasião dos 500 anos de sua morte que foi aberta ao público nesta semana.

 

Mostra de Da Vinci no LouvrePara realizar a exibição pelos 500 anos da morte de Da Vinci, Louvre teve de driblar crise diplomática com a Itália e aguardar decisão da Justiça do país

A mostra Leonardo da Vinci no Louvre reúne o maior número de trabalhos do mestre renascentista já exibidos em um único local — 162 obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos e esculturas —, e é considerada um dos maiores eventos culturais na França neste ano.

Mas, para concretizá-la, o Louvre sofreu vários percalços. A começar pelas tensões diplomáticas com a Itália, que se recusava a emprestar as obras do artista toscano.

Inicialmente, o país estava de acordo. Mas a mudança de governo na Itália alterou os planos e, em novembro passado, a extrema direita no poder passou a afirmar que ceder as obras para a exposição lesaria os italianos. A Liga Norte chegou a pedir a devolução da célebre Mona Lisa à Itália como contrapartida para emprestar obras ao Louvre.

Um acordo foi finalmente acertado entre os ministros da Cultura dos dois países, após o Louvre concordar em emprestar obras do pintor Raphael para uma mostra em Roma, em março de 2020.

Mas os problemas com a Itália não acabaram por aí. O famoso desenho do Homem Vitruviano — realizado em cerca de 1490, que representa as proporções perfeitas do corpo humano — só chegou à França menos de uma semana antes do início da exposição após uma decisão da Justiça italiana, no dia 16 de outubro.

Uma associação de defesa do patrimônio cultural do país, Italia Nostra, havia tentado impedir o envio do desenho, que integra o acervo da Galeria da Academia de Veneza.

"Em um momento a situação se tornou política. Nosso desejo não era entrar em negociações políticas, preferimos as boas relações científicas. Felizmente, as coisas se acalmaram", diz Vincent Delieuvin, um dos curadores da exposição, sobre os problemas com o governo italiano.

O Homem Vitruviano será exibido na mostra no Louvre por apenas dois meses (o evento em si fica em cartaz até 24 de fevereiro de 2020) e há exigências draconianas que o museu deverá respeitar em relação à iluminação da obra, que deve ser de baixa intensidade e por tempo limitado.

O Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia, também só confirmou o empréstimo da pintura Madona Benois poucos dias antes do início da exposição.

O trabalho para a organização da exposição foi enorme: começou há dez anos, com pesquisas. Os pedidos de empréstimos das obras a museus e colecionadores começaram a ser feitos em 2015. Em alguns casos, o suspense da resposta durou até às vésperas.

Delieuvin afirma que houve um certo número de bloqueios em relação ao empréstimo de obras, mas considera isso "natural", já que o próprio Louvre só empresa "muito excepcionalmente" suas obras de Leonardo da Vinci. "Muitas delas têm mais de 500 anos e precisam ser transportadas com grande precaução e apenas por bons motivos."

Um dos mais importantes empréstimos foi da rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra, que cedeu 24 desenhos de um total de 600 que fazem parte da coleção do castelo de Windsor. O Vaticano emprestou a tela de São Jerônimo Penitente.

O orçamento para a organização da exposição não é revelado, mas sabe-se que os valores são altíssimos em razão dos seguros das obras. Estima-se que ele seja o dobro ou o triplo de grandes retrospectivas.

O Louvre também teve de cumprir uma série de exigências técnicas feitas pelas instituições ou colecionadores que emprestaram as obras, conta Delieuvin.

Os locais de exposição dispõem de condições climáticas e de segurança mais reforçadas. "Todos os quadros de Leonardo e alguns desenhos estão em espaços climatizados. São os museus que emprestam que decidem tudo, do transporte às condições de conservação, incluindo a iluminação", afirma o curador.

Recorde de quadros

Pela primeira vez, uma exposição apresenta o maior número de quadros de Leonardo da Vinci exibidos em um mesmo local: dez telas de um total de 15 a 18 atribuídas ao artista. O Louvre já possui cinco pinturas, a maior coleção do mundo, além de 22 desenhos.

Curiosamente, a Mona Lisa, um dos mais famosos quadros de Da Vinci e que atrai multidões ao Louvre, não integra a exposição. A obra continua sendo exibida na Sala dos Estados, recentemente renovada.

Mas a Mona Lisa está presente na exposição sob outras formas. Uma delas em uma "reflectografia de infravermelho", em tamanho real, técnica utilizada em outros quadros na mostra e que revela os gestos do artista e os detalhes sob as camadas de tinta. Ela permite observar o primeiro desenho feito por Da Vinci na tela, as alterações feitas depois e o início do trabalho de pintura.

A Mona Lisa, ou Gioconda, também pode ser vista em uma experiência de realidade virtual, no final da exposição. Em um filme de sete minutos, é possível observar bem de perto os detalhes da pintura que geralmente está cercada por uma multidão no museu. É possível ver até mesmo a rachadura na madeira onde ela foi pintada, na parte de trás da obra.

Mona Lisa em infravermelho
A Mona Lisa em si não está presente na mostra, mas um momento da exposição mostra-a em infravermelho, revelando os gestos do artista e os detalhes sob as camadas de tinta

Cerca de 220 mil reservas (obrigatórias para poder visitar) já foram feitas para ver a exposição no Louvre. O museu parisiense poderá bater o recorde da exposição sobre Eugène Delacroix, no ano passado, que atraiu 540 mil visitantes.

A assessoria do Louvre ressalta que o museu tem capacidade para acolher cerca de 30 mil visitantes diários e que a exposição pode receber entre 5 mil e 7 mil por dia, e que existem, portanto, limites em termos de público.

Dividida em seções como "sombra, luz e relevo", "liberdade", "ciência", "vida", "Leonardo em Milão" ou "Partida para a França", a exposição tem o objetivo de mostrar que a pintura era considerada por Da Vinci como a principal forma de arte e que suas pesquisas, chamadas por ele de "ciência da pintura", tinham o objetivo de dar vida ao seus quadros.

Da Vinci pintou poucas telas, "mas passou o essencial de seu tempo pintando", diz Delieuvin. As pesquisas científicas feitas pelo artista nas mais variadas áreas, de botânica à anatomia, passando pela mecânica dos fluidos à meteorologia e zoologia — que podem ser vistas nos inúmeros cadernos e manuscritos na exposição — teriam como objetivo o aprimoramento da arte da pintura, na avaliação do curador.

O artista é considerado um gênio e o primeiro a conseguir dar vida à pintura, criando sensações de movimento de seus personagens na tela.

O Louvre ainda não sabe se terá na exposição o quadro Salvator Mundi, adquirido por um colecionador anônimo, por US$ 450 milhões em um leilão da Christie's em 2017. É a obra de arte mais cara do mundo. Mas há poucas chances, já que o paradeiro da tela, solicitada pelo museu francês aos Emirados Árabes Unidos, é hoje oficialmente desconhecido.

 

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50147521

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