Comentário Crítico
A obra pictórica de Chanina caracteriza-se por intenso colorismo e apoia-se numa abordagem em que a fantasia é a tônica dominante. Os temas de suas pinturas são os mais variados, incluindo paisagens, figuras, palhaços, cavalos e retratos, entre outros. Ao longo de sua carreira, Chanina também faz algumas incursões pela abstração lírica, em trabalhos como Abstração (1964) e O Sonho (1988)....
Para o ensaísta Isaías Golgher, a gama de cores presente nesses trabalhos se harmoniza com a forma, pois sua função não seria apenas decorativa. Por outro lado, o tema das cidades imaginárias, que permeia décadas da produção de Chanina - Festa em BH (1955) e Noite de São João no Interior (1999) são exemplos -, mostra os vínculos de sua pintura com a obra de Guignard, com quem estudou em 1946. Algumas lições deixadas pelo mestre marcam fortemente sua obra: o grafismo, a linha como elemento decorativo e a cor modulada nas figuras e muitas vezes na paisagem. Segundo a artista Yara Tupynambá (1932), também aluna de Guignard, é recorrente nos trabalhos de Chanina a conciliação do uso da cor homogênea, no primeiro plano, com a liberdade do traço, no fundo. Além disso, o artista retoma de Guignard o emprego da transparência nas cores, o uso dos azuis e a delicadeza dos meios tons, vazados por um lirismo onírico. A todas essas características Chanina acrescenta ainda algo da fantasia poética de Marc Chagall (1887-1985).Críticas
"A pintura de Chanina fala. Com seus tons vivos, nítidos, inconfundíveis mas, principalmente, pela riqueza, sempre mais ou menos fantástica, do conteúdo formal. Chanina não gosta de retratar o que quer ou quem quer que seja, embora saiba fazê-lo de maneira excelente, nas poucas vezes em que concede à objetividade o privilégio de disciplinar-lhe a fantasia: seu forte é a percepção de um opulento, formidável, espantoso mundo interior que impõe sua presença, que se extravasa irresistivelmente sobre a realidade externa e a despedaça. Sua pintura, em qualquer tentativa ou fase definida, não é jamais abstrata, nem fotográfica. É sempre uma ´visão chanínica´, muito pessoal, filha de inegável originalidade artística, tesouro interior de alguém profunda, e talvez, desconcertantemente humano".
Malomar Lund Edelweiss
CAVALCANTI, Carlos; AYALA, Walmir, org. Dicionário brasileiro de artistas plásticos. Apresentação de Maria Alice Barroso. Brasília: MEC/INL, 1973-1980. (Dicionários especializados, 5).
"A origem judaica, a formação e convivência em Minas, o ofício da medicina: na confluência dessas forças, o pintor Chanina realiza uma obra fortemente humanista, densa, dramática, carregada de uma sensibilidade peculiar, não se descartando de um certo lirismo que corresponde, dentro de sua visão-de-mundo, ao reconhecimento das próprias possibilidades redentoras da arte. O expressionismo que marcará toda a sua obra - figurativa ou não - tem origem nas próprias raízes culturais do artista que, como em Chagall, sobrepondo-se ao sentimento trágico da vida, há de fazer de sua pintura: poesia. Lírico, Chanina pinta com o coração, fazendo fluir, da malha de acentuados grafismos, iluminada pelo magnífico colorido, a constelação de imagens-símbolos que rompem os limites da realidade para aninhar-se nos páramos de fantásticas regiões. Suas personagens míticas - mulheres com pombas e flores, cavaleiros medievais, cavalos estelares e feiticeiros - e as suas paisagens mineiras e de outros reinos, tudo se inscreve dentro desse círculo de sonho e fantasia, que a cor e o rico tessituramento da matéria pictórica mais acentuam".
Márcio Sampaio
SAMPAIO, Márcio. Chanina. Suplemento Literário Minas Gerais, Belo Horizonte, v. 22, n. 1095, p. 3, 5 mar. 1988. Edição especial.
Fonte: Escritório de Arte