Há 25 anos, o Observatório de Favelas atua para transformar a maneira como as favelas são representadas e consideradas nas políticas públicas, na produção de conhecimento e no debate sobre a cidade. Fundada em 2001, no Conjunto de Favelas da Maré, a organização tornou-se referência nacional e internacional em pesquisa, formação, comunicação, produção cultural e incidência política, promovendo iniciativas que ampliam direitos, enfrentam desigualdades e fortalecem a democracia a partir das favelas e periferias.
Criado em um contexto em que esses territórios eram retratados quase exclusivamente pela violência, pela precariedade e pela ausência de direitos, o Observatório de Favelas nasceu, sob a liderança dos geógrafos e educadores Jailson de Souza e Silva e Jorge Luiz Barbosa, para disputar essa narrativa. Essa perspectiva orienta a atuação da organização por meio do Paradigma da Potência, que reconhece as favelas como territórios de criação, conhecimento e organização, valorizando seus saberes, experiências e capacidades na construção de políticas públicas e cidades mais justas e democráticas.
Ao longo de sua trajetória, o Observatório contribuiu para consolidar um campo de pensamento que influencia universidades, gestores públicos, organizações da sociedade civil, organismos internacionais e movimentos sociais. Esse trabalho ampliou o debate sobre temas como direito à cidade, segurança pública, educação, cultura, justiça racial, comunicação e participação democrática, com o compromisso de pensar e transformar as cidades a partir das favelas.
Milhares de pessoas participaram das iniciativas da organização ao longo dessa trajetória, entre estudantes, moradores, pesquisadores, artistas, comunicadores, educadores, ativistas e lideranças comunitárias. Ao longo de duas décadas e meia, o Observatório também fortaleceu articulações entre esses diferentes sujeitos e grupos em diversas regiões do país. Essa rede tornou-se um dos principais legados da organização, multiplicando metodologias, experiências e formas de atuação em distintos territórios do Brasil.
"Celebrar os 25 anos do Observatório de Favelas é reconhecer uma trajetória construída coletivamente. Nenhuma instituição chega a esse marco sozinha. Essa história foi tecida por muitas contribuições que, ao longo dessas duas décadas e meia, acreditaram que as favelas e periferias são territórios de potências e direitos", afirma Isabela Souza, que integra a diretoria do Observatório de Favelas ao lado de Elionalva Sousa, Priscila Rodrigues e Raquel Willadino. A atual direção da instituição é composta integralmente por mulheres.
Em seus 25 anos de atuação, o Observatório de Favelas desenvolveu iniciativas que se tornaram referências na valorização das criações, narrativas e saberes produzidos nas favelas, subúrbios e periferias. Entre os projetos pioneiros está o “Conexões de Saberes”que buscou contribuir com a permanência qualificada de jovens de origem popular nos cursos de graduação. Encampado pelo Ministério da Educação (MEC), em 2006, a iniciativa se tornou política pública em 33 universidades federais do Brasil.
“A sociedade civil criou uma iniciativa, testou, vivenciou e conseguiu levá-la para a esfera pública. A gente conseguiu fechar um ciclo”, analisa Elionalva Sousa.
No campo das artes e das expressões culturais, destacam-se projetos como o Programa Imagens do Povo, iniciativa pioneira de documentação e pesquisa fotográfica sobre os cotidianos periféricos; o Galpão Bela Maré, espaço cultural dedicado à produção, circulação e difusão das artes visuais e de diferentes linguagens artísticas na Maré; a cogestão da Arena Cultural Dicró, equipamento público municipal voltado à valorização e difusão da produção artística dos subúrbios e periferias; e a Galeria 535, primeira galeria de fotografia em uma favela no Brasil, que amplia o acesso e o reconhecimento da fotografia produzida nesses territórios.
Essa atuação também se conecta a iniciativas de formação, comunicação e compartilhamento de saberes, como a ELÃ – Escola Livre de Artes e a ESPOCC – Escola Popular de Comunicação Crítica, que se consolidaram como espaços de criação, formação e fortalecimento de trajetórias. Somam-se a essas ações exposições, festivais, cursos e o CineBela, cineclube e sala de cinema localizado no Galpão Bela Maré. Juntas, essas frentes promovem a circulação de conhecimento e cultura, alcançando, em média, cerca de 180 mil pessoas diretamente por ano e conectando a Maré, onde o Observatório está sediado, a públicos de diferentes regiões do Rio de Janeiro.
"A aposta radical em processos formativos transforma o Observatório de Favelas o tempo inteiro. A formação é uma porta aberta: toda experiência, em alguma medida, transforma esta instituição. Ela fortalece trajetórias, como a minha, e forma pessoas para continuarem construindo o Observatório. Parte da história mais bonita da instituição está justamente nesse movimento: pessoas que entram como alunas ou participantes e permanecem aqui, ajudando a construir esta instituição. Esse é o nosso sonho", afirma Priscila Rodrigues, diretora do Observatório de Favelas.
Cinco caminhos para fortalecer as favelas e periferias
Hoje, suas ações estão organizadas em cinco eixos estratégicos que articulam pesquisa, formação, comunicação, produção cultural e incidência política.
No eixo de Direito à Vida e Segurança Pública, a organização desenvolve pesquisas, metodologias e ações voltadas à redução da violência e à construção de políticas que priorizem a proteção da vida e a garantia de direitos. Em Políticas Urbanas, produz estudos, tecnologias sociais e propostas que contribuem para ampliar o direito à cidade e promover cidades mais justas e inclusivas.
O eixo de Educação reúne programas de formação que ampliam oportunidades para jovens e adultos, fortalecem lideranças e aproximam os saberes produzidos nas favelas dos espaços acadêmicos e institucionais. Já a Comunicação busca ampliar e diversificar as narrativas sobre esses territórios, formando comunicadores populares e produzindo conteúdos que evidenciam sua pluralidade, suas experiências e suas contribuições para a sociedade.
Em Arte e Território, a cultura é compreendida como instrumento de transformação social, preservação da memória e fortalecimento dos vínculos comunitários. O eixo reúne iniciativas que apoiam artistas, coletivos e espaços culturais periféricos, reafirmando o papel da arte como caminho para ampliar direitos, valorizar identidades e fortalecer a produção cultural das favelas.
"A luta pelo direito à vida é crucial para iniciar o debate sobre todos os outros direitos, mas no fundo a gente quer muito mais do que manter-se vivo. A nossa luta é pelo bem viver, pela garantia do direito à vida para moradoras e moradores de favelas e periferias, mas sobretudo a possibilidade dessas pessoas experimentarem as múltiplas dimensões do bem viver", afirma Raquel Willadino.
25 anos construindo caminhos para o futuro - Festival DE FAVELAS
Celebrar os 25 anos do Observatório de Favelas é também reafirmar um compromisso com o futuro. Em um cenário marcado pelo avanço das desigualdades, pelas transformações climáticas e pelos desafios à democracia, a organização segue fortalecendo a potência das favelas e periferias como espaços de produção de conhecimento, criação e construção de novas possibilidades para as cidades.
Como marco dessa celebração, o Observatório realiza o Festival DE FAVELAS, no dia 22 de agosto, no Galpão Bela Maré. O encontro reunirá pesquisadores, artistas, lideranças comunitárias, movimentos sociais, gestores públicos e moradores em uma programação gratuita com debates, exposição, cinema, oficinas e música, celebrando a trajetória da instituição e as contribuições das favelas para a sociedade brasileira.
Inspirado no vergalhão, elemento presente nas construções das favelas que permanece exposto como uma marca de continuidade e possibilidade de novos andares, o conceito do Festival parte da ideia de que o futuro é construído a partir das bases já erguidas. A imagem representa a trajetória do Observatório: uma história construída coletivamente, que reconhece os caminhos percorridos e reafirma o compromisso com o que ainda está por vir.
"Os próximos 25 anos nos convocam a fortalecer ainda mais a produção de conhecimento comprometida com a transformação social, ampliar o diálogo entre diferentes gerações, investir na formação de novas lideranças, fortalecer a cultura e a comunicação como campos estratégicos e seguir incidindo na construção de políticas públicas mais democráticas. O Festival traduz esse horizonte. Ele não foi concebido como um encerramento de ciclo, mas como um convite para construir os próximos andares dessa história. Assim como o vergalhão permanece exposto porque a obra continua, queremos que os próximos 25 anos sejam marcados pela capacidade de seguir fazendo junto, vivendo junto e imaginando junto, sempre a partir das potências dos territórios populares", comenta Isabela Souza.
A programação do Festival DE FAVELAS propõe encontros em torno de temas fundamentais para pensar os territórios e as cidades. Entre os destaques estão a abertura da exposição “Tudo começa pelo território”, diálogos sobre a força do fazer coletivo, bem-viver, território e democracia, além de debates sobre cultura, memória e produção de narrativas. O público também poderá participar de sessões de cinema, oficina de tecnologia, momentos de celebração e uma festa de encerramento.
O Festival De Favelas conta com o apoio da Fundação Tide Setubal, patrocínio do Instituto Unibanco e realização do Observatório de Favelas.
Serviço | Festival DE FAVELAS
Data: 22 de agosto de 2026 (sábado)
Horário: a partir das 10h
Local: Galpão Bela Maré – Rua Bittencourt Sampaio, 169, Nova Holanda
Visite o site e saiba mais: https://













