Rubem Valentim: a geometria como linguagem do sagrado
Como o artista baiano transformou símbolos afro-brasileiros em uma linguagem moderna, atravessou fronteiras entre pintura e escultura e construiu uma obra que continua sendo revisitada por museus, pesquisadores e pelo mercado de arte.
A pesquisa para essa coluna foi feita em colaboração com o iArremate Legacy, em parceria comercial.
À primeira vista, algumas pinturas de Rubem Valentim parecem pertencer exclusivamente ao universo da abstração geométrica. Triângulos, círculos, semicírculos e linhas se organizam em composições de cores intensas, frequentemente marcadas pela simetria e pelo equilíbrio.
Mas observar essas obras apenas como exercícios formais significa deixar de lado uma parte importante de sua construção.
Por trás das formas, existem símbolos religiosos, referências culturais, experiências pessoais e uma investigação sobre o que poderia constituir uma linguagem artística brasileira.
Nascido em Salvador, em 1922, Valentim desenvolveu uma produção que atravessou a pintura, a gravura, os relevos, a escultura e as instalações. Ao longo de mais de quatro décadas, encontrou maneiras de aproximar os princípios da arte construtiva de referências afro-brasileiras, especialmente da iconografia do candomblé e da umbanda.
Sua contribuição não se resume à incorporação desses elementos à arte moderna. Valentim fez deles os fundamentos de uma linguagem visual própria.
Compreender sua trajetória é, portanto, investigar uma questão que continua importante para a história da arte brasileira: de quais referências culturais pode nascer uma arte moderna?
Rubem Valentim, Emblema logotipo poético de cultura Afro-Brasileira – nº 8, 1976. Acrílica sobre tela, 101 × 75 cm. Acervo MASP. Foto: Eduardo Ortega. Ver obra no MASP.
Salvador: as primeiras formas de olhar o mundo
Rubem Valentim nasceu em 9 de novembro de 1922, em Salvador, na Bahia.
Sua infância foi marcada pelas manifestações culturais e religiosas da cidade. Em relatos autobiográficos, recordou o interesse pelos presépios que construía, pelas decorações das festas populares, pelas imagens das igrejas católicas e pelos objetos presentes nas cerimônias do candomblé.
Essas experiências ajudaram a formar um repertório visual que seria recuperado e transformado em sua produção adulta.
Antes de se dedicar integralmente à arte, Valentim seguiu caminhos profissionais distintos. Formou-se em odontologia pela Universidade da Bahia, em 1946, e em jornalismo, em 1953.
Sua formação artística aconteceu principalmente por meio do estudo independente, da observação e do contato com outros artistas.
Em 1948, passou a participar do movimento de renovação das artes plásticas em Salvador, relacionado à revista Caderno da Bahia. Nesse ambiente, conviveu com artistas como Mário Cravo Júnior, Jenner Augusto e Lygia Sampaio.
Também aprofundou seus estudos sobre a pintura moderna. Cézanne, Matisse, Braque, Picasso e Paul Klee estavam entre suas referências.
Essas influências conviviam com outra pesquisa: a observação de cerâmicas populares, ex-votos, objetos religiosos, elementos arquitetônicos e formas encontradas no cotidiano baiano.
Valentim não precisou escolher entre esses universos. Sua obra se desenvolveu justamente no encontro entre eles.
As pinturas desse primeiro período ainda apresentam paisagens, naturezas-mortas e formas orgânicas. Em Linhas Cores Formas (1950), por exemplo, já podemos observar seu interesse pelas relações entre estruturas, ritmos e cores, embora a linguagem geométrica que o tornaria conhecido ainda estivesse em formação.

Rubem Valentim, Linhas Cores Formas, 1950. Foto: Jaime Acioli. Ver reprodução publicada pela Veja Rio.
Rio de Janeiro: quando a geometria encontra os símbolos
Em 1957, Valentim mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
Era um momento de intensa discussão sobre a abstração geométrica. Movimentos como o concretismo e, posteriormente, o neoconcretismo, propunham novas relações entre formas, materiais, percepção e espaço.
Valentim acompanhou essas discussões, mas manteve uma posição independente.
A geometria que desenvolvia não estava interessada apenas na organização racional dos elementos visuais. Suas formas carregavam referências simbólicas relacionadas à religião, à experiência cultural e à memória.
Essa diferença é fundamental.
Em 2x-2 (1960), pintura hoje pertencente ao acervo do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, observamos uma composição organizada por formas rigorosamente delimitadas. A relação entre estrutura e cor se torna cada vez mais importante.
Poucos anos depois, em Composição 12 (1962), esse vocabulário aparece associado a um repertório simbólico mais complexo.

Rubem Valentim, 2x-2, 1960. Óleo sobre tela, 45,1 × 29,8 cm. Acervo The Museum of Modern Art, Nova York. Doação Patricia Phelps de Cisneros, em homenagem a Lawrence Benenson. Ver ficha e imagem no MoMA.
Como ler uma pintura de Rubem Valentim?
Para compreender a originalidade do artista, é importante reconhecer que as formas presentes em suas obras nem sempre são figuras geométricas sem significado.
Entre suas referências estão o oxé, machado de duas lâminas associado a Xangô; o ofá, arco e flecha de Oxóssi; e instrumentos relacionados a outros orixás, como as hastes de Ossaim.
Valentim estudava essas formas e as transformava em elementos de composição. Elas podiam ser reorganizadas, simplificadas, repetidas ou combinadas.
O resultado não era uma reprodução literal dos objetos religiosos, mas a construção de um novo sistema visual.
A pintura Composição 12, de 1962, permite observar esse processo.
Na interpretação apresentada pelo MASP, elementos centrais da obra se relacionam à figura de Exu, orixá associado à comunicação entre as dimensões terrena e espiritual.
O semicírculo faz referência ao alguidar, recipiente utilizado em oferendas. As faixas vermelhas presentes na parte superior e inferior da composição podem ser lidas como referências a Orum, dimensão dos orixás, e Aiê, mundo terreno.
As setas e os eixos que estruturam a pintura passam, assim, a participar de uma organização simbólica.
Essa leitura não significa que todas as obras de Valentim devam ser interpretadas como códigos de tradução direta. Sua linguagem também envolve invenção, deslocamento de sentidos e liberdade artística.
É justamente nessa relação entre forma e significado que sua produção ganha complexidade.
Rubem Valentim, Composição 12, 1962. Óleo sobre tela, 102 × 72 cm. Acervo MASP. Foto: MASP. Ver obra e interpretação curatorial.
Roma e Dacar: o diálogo com outras tradições
Em 1962, Valentim recebeu o prêmio de viagem ao exterior no XI Salão Nacional de Arte Moderna. No mesmo ano, participou da Bienal de Veneza.
Em 1963, viajou para a Europa, passando pela Inglaterra antes de estabelecer-se em Roma, em 1964.
O período europeu ampliou seu contato com museus, coleções de arte africana e debates internacionais sobre a produção artística moderna.
A experiência também trouxe transformações formais.
Suas composições passaram a apresentar uma organização vertical mais pronunciada. Os elementos geométricos eram sobrepostos, aproximando-se visualmente de estruturas totêmicas.
Em Pintura nº 28 (1965), essa característica se torna particularmente evidente.
As formas se articulam em torno de um eixo, criando uma estrutura que pode ser percebida tanto como composição abstrata quanto como construção simbólica.
Em 1966, Valentim participou do Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dacar, no Senegal.
O evento reuniu artistas e intelectuais de diferentes países em um contexto de afirmação cultural e política das populações negras e de transformações decorrentes dos processos de independência africanos.
A presença de Valentim naquele encontro ajuda a compreender a dimensão internacional de sua pesquisa.
Embora profundamente ligada à experiência brasileira, sua obra participava de discussões mais amplas sobre identidade, memória, cultura e modernidade.

Rubem Valentim, Pintura nº 28, 1965. Foto: Jaime Acioli. Ver reprodução publicada pela Veja Rio.
Brasília: quando os símbolos deixam a pintura
Em 1966, Valentim retornou ao Brasil. No ano seguinte, mudou-se para Brasília, convidado a lecionar no Instituto Central de Artes da Universidade de Brasília.
Sua permanência na capital federal se tornaria um período decisivo.
Até então, grande parte de sua pesquisa estava concentrada na superfície pictórica. A partir do final da década de 1960, passou a desenvolver com maior intensidade relevos e objetos tridimensionais.
As formas que antes apareciam representadas sobre a tela começaram a existir como estruturas físicas.
Uma obra importante dessa transformação é Objeto Emblemático nº 6, de 1969, pertencente ao Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.
Produzida em madeira policromada, a escultura demonstra como Valentim transferiu seu vocabulário geométrico para uma construção espacial.
A tridimensionalidade abriu possibilidades que a pintura não oferecia. O artista passou a trabalhar com a posição do observador, a relação entre os volumes e a presença física das formas.
Essa investigação se estendeu à arquitetura e à arte pública.
Em 1972, realizou um mural de mármore com aproximadamente 120 metros quadrados para o edifício-sede da Novacap, em Brasília, sua primeira obra pública.
A passagem da pintura ao espaço construído não representava o abandono de sua linguagem anterior. Era sua expansão.
Rubem Valentim, Objeto Emblemático nº 6, 1969. Madeira policromada, 222 × 83 × 33 cm. Museu Afro Brasil Emanoel Araujo. Foto: Jailton Leal / Museu Afro Brasil. Ver ficha e imagem da obra.
A criação de uma riscadura brasileira
Em 1976, Valentim publicou o Manifesto ainda que tardio: depoimentos redundantes, oportunos e necessários.
O documento constitui uma referência importante para compreender sua produção porque apresenta o próprio artista refletindo sobre os fundamentos de sua linguagem.
Valentim defendia a possibilidade de construir uma arte contemporânea e de alcance universal a partir das matrizes culturais brasileiras, incluindo suas heranças africanas e indígenas.
Para ele, não era necessário reproduzir os modelos europeus de modernidade nem permanecer restrito a uma representação folclórica da cultura nacional.
Era possível desenvolver outra proposta.
A expressão riscadura brasileira, utilizada por Valentim, sintetiza parte dessa ambição: uma linguagem visual construída a partir de signos, formas, estruturas e referências culturais presentes na experiência brasileira.
Nesse processo, também desenvolveu o chamado Alfabeto Kitônico, um conjunto de quinze signos básicos que poderiam ser combinados de diferentes maneiras.
O sistema demonstra como sua pesquisa ultrapassava a criação de obras isoladas. Havia uma tentativa de organizar um vocabulário capaz de produzir novas relações visuais e significados.
Ao refletir sobre sua própria prática, Valentim escreveu:
“A geometria é um meio. Procuro a claridade, a luz da luz.”
A frase, recuperada na exposição Rubem Valentim: a ordem do sensível, realizada pelo MAM Rio em 2026, ajuda a compreender seu pensamento.
A geometria era uma ferramenta para organizar algo mais amplo: uma experiência estética, cultural e espiritual.
Templo de Oxalá: a linguagem se transforma em ambiente
Em 1977, Valentim apresentou uma de suas realizações mais importantes: Templo de Oxalá, na 14ª Bienal de São Paulo.
A instalação reuniu estruturas escultóricas brancas, organizadas no espaço em relação a relevos e elementos arquitetônicos.
O branco faz referência à cor associada ao orixá Oxalá.
Diferentemente de uma pintura, observada frontalmente, a instalação propunha uma experiência ambiental. O público precisava perceber as relações entre as estruturas e o espaço ocupado por elas.
A obra representava a ampliação de uma investigação iniciada décadas antes.
Os signos que apareciam nas pinturas passaram a constituir objetos; os objetos, por sua vez, passaram a formar um ambiente.
O Templo de Oxalá foi remontado na 35ª Bienal de São Paulo, em 2023, retomando um trabalho fundamental para a compreensão das relações entre arte moderna, referências afro-brasileiras e experiência espacial.
Rubem Valentim, Templo de Oxalá, 1977. Vista da remontagem na 35ª Bienal de São Paulo, 2023. Foto: Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo. Ver imagem e apresentação da obra.
O símbolo chega à cidade
A investigação espacial de Valentim também encontrou expressão no ambiente urbano.
Em 1979, realizou o Marco Sincrético da Cultura Afro-Brasileira, escultura em concreto com aproximadamente 8,5 metros de altura, instalada na Praça da Sé, em São Paulo.
A obra levou seu repertório simbólico a um dos espaços públicos mais movimentados da cidade.
Sua presença ali estabelece uma relação importante entre monumento, memória cultural e experiência cotidiana.
Se no Templo de Oxalá os visitantes entram em um ambiente criado pelo artista, no Marco Sincrético a obra passa a fazer parte de um espaço atravessado diariamente por milhares de pessoas.
É outra maneira de aproximar arte, sociedade e cidade.
Rubem Valentim, Marco Sincrético da Cultura Afro-Brasileira, 1979. Praça da Sé, São Paulo. Foto: André Deak / Arte Fora do Museu, 2011. Ver fotografia no Wikimedia Commons. Fotografia disponibilizada sob licença CC BY 2.0.
Reconhecimento e novas leituras de sua obra
Rubem Valentim morreu em São Paulo, em 30 de novembro de 1991.
Seu reconhecimento, entretanto, não começou após sua morte.
Durante a vida, participou de diversas edições da Bienal de São Paulo, esteve na Bienal de Veneza, realizou exposições individuais no Brasil e no exterior e recebeu importantes prêmios.
Em 1962, sua exposição na Galeria Relevo, no Rio de Janeiro, foi reconhecida pela crítica. Em 1966, recebeu um prêmio especial na I Bienal da Bahia pela contribuição à pintura brasileira.
O que as últimas décadas trouxeram foi também uma revisão das maneiras de interpretar sua produção.
Em 2018, o MASP inaugurou Rubem Valentim: construções afro-atlânticas, exposição que reuniu cerca de 90 trabalhos e procurou reposicionar a contribuição do artista na história da arte.
A mostra destacou sua relação com as culturas afro-atlânticas e seu papel na transformação das linguagens construtivas.
Em 2023, a remontagem do Templo de Oxalá na Bienal de São Paulo levou sua obra novamente ao centro de debates sobre arte, ancestralidade e produção cultural.
Entre 2024 e 2025, o Institute of Contemporary Art (ICA), em Miami, apresentou Crossroads: Rubem Valentim’s 1960s, sua primeira exposição individual em um museu dos Estados Unidos.
Em 2026, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro realizou Rubem Valentim: a ordem do sensível, com aproximadamente 180 obras.
Organizada a partir dos lugares que marcaram sua trajetória, a exposição permitiu acompanhar o desenvolvimento da linguagem do artista entre Salvador, Rio de Janeiro, Roma, Brasília e São Paulo.
A sequência desses acontecimentos demonstra que o interesse por Valentim permanece ativo.
E também revela uma transformação importante: sua produção passou a integrar, de forma cada vez mais visível, discussões sobre a pluralidade do modernismo brasileiro.
Vista da exposição Rubem Valentim: a ordem do sensível, MAM Rio, 2026. Curadoria: Raquel Barreto e Phelipe Rezende. Foto: Fabio Souza / MAM Rio. Ver exposição e imagens.
Cinco obras para compreender Rubem Valentim
Embora sua trajetória inclua diferentes fases e suportes, algumas obras ajudam a reconhecer mudanças importantes em sua pesquisa.
- Linhas Cores Formas (1950)
Apresenta aspectos de sua investigação inicial, antes da consolidação da linguagem geométrica mais rigorosa. Ajuda a compreender como a experimentação com formas e ritmos antecedeu seus emblemas.
- Composição 12 (1962)
É uma referência para observar como os símbolos afro-brasileiros passaram a integrar estruturas geométricas complexas, nas quais cor, posição e forma participam da construção de significados.
- Objeto Emblemático nº 6 (1969)
Marca o desenvolvimento da pesquisa tridimensional. Os signos deixam de existir apenas como representação pictórica e passam a constituir objetos.
- Emblema logotipo poético de cultura Afro-Brasileira – nº 8 (1976)
Demonstra a síntese formal de seu vocabulário, em um período de intensa reflexão sobre a possibilidade de uma linguagem artística brasileira.
- Templo de Oxalá (1977)
Amplia a pesquisa para a escala ambiental, reunindo forma, símbolo, espiritualidade e experiência espacial.
Essas obras não resumem toda a produção de Valentim, mas permitem acompanhar alguns dos movimentos fundamentais de sua trajetória.
Outra dimensão da trajetória: a circulação da obra no mercado
A presença de Rubem Valentim em museus, exposições e pesquisas acadêmicas é apenas uma das maneiras de observar a continuidade de sua obra.
Outra dimensão é sua circulação no mercado secundário, onde pinturas, gravuras, esculturas e outros trabalhos podem apresentar comportamentos bastante diferentes.
Para investigar esse aspecto, o Guia das Artes consultou dados do iArremate Legacy, plataforma de inteligência dedicada ao mercado secundário brasileiro de arte.
O levantamento selecionado abrange registros de Rubem Valentim entre 2016 e 2026, com dados consultados em outubro de 2026.
Um mercado com diferentes faixas de preço
Na distribuição por faixas de arremate apresentada pelo Legacy, aparecem 616 registros de lotes arrematados.
Desse total, 542 registros, aproximadamente 88%, estão concentrados na faixa de até R$ 15 mil.
Em contraste, 36 registros, cerca de 5,8%, correspondem a arremates superiores a R$ 90 mil.
Nesse conjunto, três aparecem entre R$ 250 mil e R$ 500 mil, e um entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão.
Nenhum registro da distribuição consultada ultrapassa R$ 1 milhão.
A diferença entre essas faixas indica que as obras negociadas não constituem um grupo homogêneo.
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