Em Estado de Arte: Roraima
Ao longo da vasta e fascinante história da arte brasileira, embarcaremos juntos em uma jornada rica, profunda e repleta de descobertas. Será uma verdadeira expedição cultural, um mergulho atento e detalhado nas inúmeras manifestações artísticas que floresceram, e ainda florescem, nos quatro cantos deste imenso e diverso país chamado Brasil.
Nosso percurso será meticuloso e revelador: exploraremos os principais movimentos artísticos de cada estado da federação, analisando suas origens, características, influências, transformações e impactos ao longo do tempo. Vamos olhar com carinho e atenção para a trajetória da arte em cada região, respeitando suas particularidades históricas, culturais e sociais, e compreendendo como cada uma contribuiu de forma singular para a formação do panorama artístico nacional. Bem-vindos mais uma vez a Em Estado de Arte: Roraima.
Por Paulo Lorenzo Villela
Onde o Sol Beija o Lavrado: A Mística e a Cor de Roraima
Roraima é um estado solar. Se Rondônia é a síntese do aço com a selva, Roraima é o encontro da vastidão horizontal do Lavrado com a imponência vertical dos Tepuis, as montanhas de topo plano que guardam segredos milenares. Localizado no extremo norte do país, o estado desenvolveu uma identidade artística vibrante, banhada por uma luz dourada e constante que moldou não apenas a paleta de seus pintores, mas a própria alma de seu povo.
A arte roraimense é, em sua essência, uma afirmação de pertencimento. Ela nasce do diálogo entre a herança cosmogônica dos povos Makuxi e Taurepang, o desenho urbano planejado de sua capital e um movimento cultural contemporâneo que se recusou a ser apenas um apêndice do eixo Manaus-Belém.
A Capital em Leque: O Desenho e a Luz de Boa Vista
A identidade visual de Roraima começa em sua arquitetura urbana. Diferente da organicidade de outras capitais nortistas, Boa Vista foi desenhada. Na década de 1940, o plano diretor do engenheiro Darcy Aleixo Derenusson projetou o centro da cidade em formato de leque, com avenidas que convergem para o Centro Cívico.
Essa geometria urbana não é apenas funcional; ela cria um cenário de perspectivas amplas e horizontes abertos que influenciam a fotografia e as artes visuais locais. A luz implacável de Roraima, que rebate no asfalto e no branco das estruturas modernistas, estabeleceu o "amarelo-roraimense" como uma cor quase onipresente nas telas que tentam capturar a capital.
Cosmogonias e Resistência: De Makunaimã a Jaider Esbell
Antes de qualquer traço urbano, o território foi o berço do mito de Makunaimã. Enquanto o modernismo paulista de Mário de Andrade "antropofagizou" o herói sem caráter, a arte de Roraima reivindica o Makunaimã original: o criador, o ancestral, o espírito da árvore da vida.
Nesse cenário, emerge a figura monumental de Jaider Esbell (1979–2021), artista e escritor Makuxi que revolucionou a arte contemporânea brasileira. Através do que chamava de "artivismo", Esbell levou a cosmovisão indígena para os maiores palcos do mundo, como a 34ª Bienal de São Paulo. Sua obra não é apenas estética; é um campo de batalha político e espiritual que questiona a colonialidade e reconecta a arte ao território sagrado. Junto a ele, destaca-se Carmézia Emiliano, cuja pintura Naïf detalha com minúcia e cor absoluta a vida comunitária e as lendas da Reserva Raposa Serra do Sol.
Roraimeira: O Som e a Luz da Estrela do Norte
O grande marco da autonomia cultural do estado é o Movimento Roraimeira. Surgido na década de 1980, liderado por artistas como Eliakin Rufino, Zeca Preto e Neuber Uchôa, o movimento unificou a música, a literatura e as artes plásticas sob uma bandeira de identidade regional única.
O "Roraimeira" é uma estética que celebra o cotidiano amazônico sem os clichês da selva úmida e sombria. É o canto do Lavrado, o cheiro da paçoca de carne seca e a luz do sol de janeiro. Através de canções como "Canto pra minha Aldeia", o movimento estabeleceu uma iconografia que transbordou para as artes visuais, influenciando gerações de artistas a pintarem e escreverem sobre a vastidão das planícies e a força dos rios Branco e Uraricoera.
Arraiás e Tradição: A Ópera do Parque Anauá
A expressão máxima da arte popular em Roraima encontra seu palco no Boa Vista Junina e nas celebrações do Parque Anauá. O que poderia ser apenas uma festa folclórica transforma-se em uma obra de arte total, onde as quadrilhas juninas operam com o rigor técnico e a grandiosidade de desfiles de escolas de samba.
Esses festivais são o momento em que o design de figurinos, as coreografias e a cenografia monumental se fundem, unindo a tradição nordestina migratória com a rítmica e os temas amazônicos. É a arte roraimense em sua forma mais democrática e explosiva, celebrando a vida sob o céu mais aberto do Brasil.
Encerramento: A Persistência da Luz no Extremo Norte
Concluímos que a arte em Roraima é um exercício de visão. Ela exige olhar para além da linha do horizonte e enxergar a profundidade mística de cada montanha e a ancestralidade de cada traço. Da geometria planejada de Boa Vista ao artivismo global de Jaider Esbell, Roraima afirma-se como um estado onde a criatividade é o sol que nunca se põe, mantendo viva a chama de um povo que vive, respira e se reinventa em permanente Estado de Arte.
Referências
ESBELL, Jaider. Makunaima/Macunaíma e a Arte/Literatura Indígena. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 38, 2019.
ITAÚ CULTURAL. Memórias Capitais: Boa Vista. Eliakin Rufino, Zeca Preto e Neuber Uchôa. São Paulo: Itaú Cultural, 2024.
MAM-SP. Moquém_Surarî: Arte Indígena Contemporânea. Curadoria de Jaider Esbell. São Paulo: Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2021.
PREFEITURA DE BOA VISTA. Plano Diretor e a Arquitetura de Darcy Aleixo Derenusson. Boa Vista: Secretaria Municipal de Planejamento, 2025.
RUFINO, Eliakin. Poética Roraimeira: Identidade e Fronteira. Boa Vista: Editora UFRR, 2017.







