Em Estado de Arte: Rondônia
Ao longo da vasta e fascinante história da arte brasileira, embarcaremos juntos em uma jornada rica, profunda e repleta de descobertas. Será uma verdadeira expedição cultural, um mergulho atento e detalhado nas inúmeras manifestações artísticas que floresceram, e ainda florescem, nos quatro cantos deste imenso e diverso país chamado Brasil.
Nosso percurso será meticuloso e revelador: exploraremos os principais movimentos artísticos de cada estado da federação, analisando suas origens, características, influências, transformações e impactos ao longo do tempo. Vamos olhar com carinho e atenção para a trajetória da arte em cada região, respeitando suas particularidades históricas, culturais e sociais, e compreendendo como cada uma contribuiu de forma singular para a formação do panorama artístico nacional. Bem-vindos mais uma vez a Em Estado de Arte: Rondônia.
Por Paulo Lorenzo Villela
Onde o Aço Beija a Selva: A Identidade Artística de Rondônia
Rondônia é um estado de síntese. Batizado em honra ao Marechal Rondon, o patrono das comunicações que via a tecnologia como um fio de conexão entre humanidades, o estado reflete essa dualidade em sua produção artística. Situado no coração da Amazônia Meridional, Rondônia não é apenas um território de passagem, mas um cadinho onde a herança milenar indígena, o ímpeto industrial do início do século XX e o fluxo migratório das décadas de 70 e 80 se fundiram em uma estética única de "fronteira viva".
A arte rondoniense não se explica sem o rio e sem o trilho. Ela é fruto da tensão entre o imutável da floresta e o mutável do progresso, uma dialética que transparece em suas telas, monumentos e festejos populares.
A Estética da Ferrovia: O Legado da Madeira-Mamoré
A espinha dorsal da história moderna de Rondônia é a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). Construída sob condições hercúleas, ela introduziu na paisagem amazônica uma arquitetura industrial de matriz anglo-saxônica e caribenha. O complexo ferroviário em Porto Velho, com suas estruturas de ferro fundido, locomotivas a vapor e o icônico Relógio de Três Faces, estabeleceu o primeiro grande marco visual e arquitetônico do estado.
Para os artistas locais, a EFMM é mais que um sítio histórico; é uma fonte iconográfica de "ruína moderna". Fotógrafos e pintores rondonienses utilizam a geometria dos trilhos e o contraste do ferro oxidado contra a exuberância verde para questionar a relação entre o homem e o tempo na Amazônia. O complexo representa o ponto de partida da civilização urbana moderna rondoniense e de sua subsequente produção imagética.
Cosmologias Tecidas: A Arte dos Povos Paiter Suruí e Cinta Larga
Antes de qualquer trilho ser assentado, o território já respirava arte em sua forma mais pura e espiritual. Rondônia abriga uma das produções de cestaria e grafismo mais sofisticadas do Brasil, com destaque para os povos Paiter Suruí e Cinta Larga.
A arte desses povos é uma extensão de sua cosmologia. A tecelagem de fibras de tucum (Astrocaryum aculeatum) e os tingimentos com jenipapo e urucum não são meros adornos, mas linguagens que comunicam o status social e a conexão com o sagrado. O grafismo Cinta Larga, caracterizado por padrões geométricos de precisão matemática, influenciou o design e a moda contemporânea, sendo hoje reconhecido como uma das mais altas expressões da inteligência estética indígena nacional.
A Crônica Visual: Da Ribeira à Galeria Urbana
Nas artes plásticas, Rondônia encontrou vozes que souberam traduzir a luminosidade e a densidade da vida regional. Rita Queiroz, com sua pintura vibrante, é a cronista visual das mulheres ribeirinhas e da vida nos beiradões do Rio Madeira. Sua obra é um hino à resiliência e à cor da Amazônia.
No cenário contemporâneo, a Casa da Cultura Ivan Marrocos, em Porto Velho, funciona como o epicentro da vanguarda. Artistas como Afonso Loureiro e novos talentos que emergem dos cursos de artes visuais do estado exploram a fotografia documental, a vídeo-arte e a instalação para debater temas urgentes como o desmatamento, a urbanização acelerada e a preservação da memória. A arte rondoniense atual deixou de ser apenas contemplativa para se tornar um campo de ativismo e reflexão crítica.
O Duelo na Fronteira: A Ópera Popular de Guajará-Mirim
Não se pode falar de arte em Rondônia sem mencionar o Duelo na Fronteira. Realizado em Guajará-Mirim, o festival coloca em disputa os bois-bumbás Flor do Campo e Malhadinho. Embora partilhe raízes com o bumbá parintinense, a manifestação rondoniense possui uma estética singular, fortemente influenciada pela fronteira com a Bolívia.
Essa celebração é uma obra de arte total: envolve música (toadas), dança e artes plásticas monumentais através de alegorias e fantasias. É o momento em que a identidade rondoniense se mostra mais plural, unindo a rítmica amazônica aos ecos das fanfarras andinas, em um espetáculo que transforma a fronteira em um palco de fraternidade e beleza.
Encerramento: A Persistência do Belo na Fronteira
Concluímos que a arte em Rondônia é, antes de tudo, um ato de persistência. Ela sobrevive ao esquecimento histórico, à distância geográfica e às transformações ambientais. Do rigor do grafismo indígena à melancolia monumental da ferrovia, Rondônia se afirma como um estado onde a criatividade é o fio que liga o passado ancestral ao futuro sustentável. É uma terra que não apenas produz objetos, mas vive, respira e se reinventa em permanente Estado de Arte.
Referências Bibliográficas
CONCULTURA. A Arte na Região Norte: Diálogos e Fronteiras. Manaus: Fundo Municipal de Cultura, 2016. (Documentação Comparativa).
FERREIRA, Dalmir. Rondônia: Rotação de culturas e a produção contemporânea. Rio Branco, 2014. Disponível em: https://rotacaodeculturas.wordpress.com. Acesso em: 18 fev. 2026.
GOVERNO DO ESTADO DE RONDÔNIA. Patrimônio Histórico e Cultural: A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Porto Velho: SEJUCEL, 2025.
IPHAN. Inventário Nacional de Referências Culturais: O Complexo da EFMM. Brasília, DF: Iphan, 2018.
ITAÚ CULTURAL. Artes Plásticas em Rondônia. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2024. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br. Acesso em: 18 fev. 2026.
MUSEU DA MEMÓRIA DE RONDÔNIA. Acervo Digital: Artistas Plásticos Rondonienses. Porto Velho: Fundação Cultural de Porto Velho, 2023.







