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Portinari e Gabriela Mistral: quando pintura e poesia se encontram no Chile - Guia das Artes
Portinari e Gabriela Mistral: quando pintura e poesia se encontram no Chile
Brodowski (1958), por Candido Portinari
Portinari e Gabriela Mistral: quando pintura e poesia se encontram no Chile
Uma roda de crianças ocupa o centro de uma paisagem de Brodowski, no interior de São Paulo.
inserido em 2026-10-26 19:20:13
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Portinari e Gabriela Mistral: quando pintura e poesia se encontram no Chile

Uma roda de crianças ocupa o centro de uma paisagem de Brodowski, no interior de São Paulo. De mãos dadas, elas parecem transformar a brincadeira em movimento contínuo. Pintada por Candido Portinari em 1932, Roda Infantil encontra agora um novo diálogo: o poema Todo es ronda, publicado pela chilena Gabriela Mistral no livro Ternura, de 1924.

Esse encontro entre pintura e poesia está no centro da exposição internacional Gabriela Mistral e Cândido Portinari, poesia e cor, inaugurada em 13 de outubro no Museo Artequin, em Santiago. A mostra reúne mais de 35 reproduções de obras de Portinari, textos de Mistral e recursos interativos para aproximar o público de dois nomes fundamentais da cultura latino-americana.

Um encontro que aconteceu no Brasil

A aproximação não é apenas uma construção curatorial. Gabriela Mistral viveu no Brasil entre 1940 e 1945, período em que atuou como cônsul do Chile em Petrópolis e no Rio de Janeiro. Durante essa passagem, aproximou-se do ambiente intelectual e artístico brasileiro, no qual Portinari já ocupava uma posição central.

O acervo do Projeto Portinari conserva uma fotografia dos dois conversando e uma carta enviada por Mistral ao pintor em 1947. Nela, a poeta apresenta uma amiga interessada em publicar um artigo sobre Portinari em uma revista argentina. São documentos que revelam uma relação atravessada não apenas pela amizade, mas também pela circulação cultural entre países latino-americanos.

A infância como memória e linguagem

Portinari voltou muitas vezes às brincadeiras que havia conhecido durante a infância em Brodowski. Pipas, rodas, bolas de gude e crianças correndo aparecem em sua produção como lembranças pessoais, mas também como imagens de uma experiência coletiva.

Em Roda Infantil, dez crianças formam uma ciranda enquanto outra observa a brincadeira. Ao fundo, aparecem casas, árvores e a pequena igreja de Santo Antônio. A paisagem não é apenas cenário: ela participa da memória construída pelo artista.

Mistral também encontrou na infância um território essencial de sua obra. Professora antes de alcançar reconhecimento internacional como poeta, escreveu sobre crianças sem reduzir esse universo à inocência idealizada. Seus poemas abordam cuidado, educação, pertencimento, perda e formação humana.

Ao aproximar Roda Infantil de Todo es ronda, a exposição cria uma conversa entre duas linguagens. Portinari constrói o movimento com corpos, gestos e cores; Mistral o faz com palavras, ritmo e repetição.

Uma América Latina vista de dentro

Além da infância, as obras dos dois autores compartilham o interesse pela paisagem, pelo trabalho, pela vida cotidiana e pelas desigualdades do continente.

Portinari pintou trabalhadores rurais, retirantes e personagens das festas populares brasileiras. Mistral escreveu sobre comunidades, educação, natureza e identidade latino-americana. Em ambos, temas locais alcançam uma dimensão mais ampla sem abandonar os lugares de onde surgiram.

Esse talvez seja o aspecto mais atual da exposição: Brasil e Chile não aparecem como margens de uma história escrita em outros centros. O diálogo acontece dentro da própria América Latina, entre artistas que observaram suas sociedades e transformaram experiências locais em questões universais.

Da roda infantil à paz

O percurso inclui ainda uma experiência audiovisual dedicada a Guerra e Paz, os dois grandes murais pintados por Portinari entre 1952 e 1956 para a sede das Nações Unidas, em Nova York.

Nos painéis, o artista contrapõe sofrimento e destruição a imagens de encontro, brincadeira e esperança. As crianças que povoam sua obra reaparecem, assim, como parte de uma visão de paz construída a partir da vida cotidiana.

Ao reunir Portinari e Mistral, o Museo Artequin propõe mais do que uma justaposição entre pintura e literatura. A exposição recupera uma rede de amizade e intercâmbio cultural e mostra como palavra e imagem podem nascer de experiências diferentes e, ainda assim, contar uma história comum.

Serviço

Gabriela Mistral e Cândido Portinari, poesia e cor
Até 31 de janeiro de 2027
Museo Artequin, Av. Portales 3530, Estación Central, Santiago, Chile
Terça a sexta, das 9h às 17h; sábados e domingos, das 11h às 18h
Ingressos entre 1.500 e 3.500 pesos chilenos
Informações oficiais

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