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O que uma mesa posta conta sobre uma sociedade - Guia das Artes
O que uma mesa posta conta sobre uma sociedade
Por Pieter Claesz - Mauritshuis, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=86340625
O que uma mesa posta conta sobre uma sociedade
Comida, louça, flores e objetos em 18 naturezas-mortas — do Egito antigo ao iPad de David Hockney - e o que elas revelam sobre hábitos, riqueza, comércio e a passagem do tempo.
inserido em 2026-09-11 20:55:57
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Conteúdo

 

Uma mesa pintada é um documento. Ela registra quem tinha acesso à comida, quais objetos conferiam prestígio, de onde vinham as mercadorias e como uma sociedade pensava a morte. Registra também aquilo que seus proprietários queriam mostrar sobre si mesmos — o que, muitas vezes, é a informação mais interessante de todas.

 

Selecionei 18 obras para percorrer esse território. Elas vão do Egito da XVIII dinastia ao século XXI e combinam pinturas consagradas do cânone europeu com exemplos que ampliam o percurso para a China, a Coreia, o Brasil e o México.

 

Um esclarecimento metodológico antes de começar. A natureza-morta se consolida como especialidade autônoma na Europa sobretudo por volta de 1600. Os exemplos egípcios e medievais entram aqui como antecedentes: neles, os objetos ainda participam de cenas religiosas ou funerárias, e não de uma pintura dedicada apenas a eles. Outras tradições — a chinesa, a coreana — desenvolveram suas próprias formas de representar objetos, com cronologias e propósitos que não seguem esse mesmo calendário. Forçar tudo dentro de uma única linha do tempo europeia seria confortável e falso.

 

A seleção foi organizada por quatro perguntas:

 

Eixo

O que investigar na pintura

Hábitos

Como os alimentos eram preparados, servidos, oferecidos ou armazenados?

Riqueza

Quais objetos indicavam distinção, conhecimento ou poder?

Comércio

Que mercadorias, técnicas e referências atravessaram fronteiras?

Tempo

Como aparecem maturação, deterioração, memória, estações e mortalidade?

 

As relações biográficas apresentadas se apoiam em informação documentada pelas instituições que guardam as obras. Onde a autoria é desconhecida, o contexto de produção e o patrono ajudam a compreender a imagem.

 

1. Oferendas para Nebamun

Artistas não identificados · c. 1350 a.C. · Tebas, Egito, XVIII dinastia · Pintura sobre reboco, 104,2 × 61 cm · British Museum (EA 37985)

 

A cena reúne figos-do-sicômoro, uvas, pães de formatos diferentes, um pato assado e peças de carne. É um fragmento de uma composição maior: segundo o British Museum, a cena inteira mostrava uma grande pilha de alimentos diante de Nebamun e sua esposa, acompanhada de vinho e de jarros ornamentados de perfume.

 

O conjunto associa a sobrevivência após a morte à continuidade de uma vida próspera. E a própria seleção documenta desigualdade — o museu registra que apenas os ricos podiam pagar pelas carnes ali representadas. A oferenda também pertencia a uma prática social viva: o filho de Nebamun aparece apresentando um buquê durante o festival de Amon, quando os parentes visitavam os mortos.

 

Não conhecemos os pintores. Mas as linhas vermelhas de planejamento ainda visíveis sob a pintura permitem observar o trabalho técnico especializado envolvido na decoração da capela funerária.

 

Onde olhar: a grade vermelha sob a tinta. É o esboço de um profissional, não de um devoto.

 

O que ela abre: a possibilidade de começar a investigação por uma pergunta inesperada — uma mesa pode ser preparada para alguém que já morreu.

 

2. Natureza-morta com xenia, Regio IX

Artista não identificado · antes de 79 d.C. · Afresco · Parque Arqueológico de Pompeia

 

Descoberto em 2023 no átrio de uma casa da Insula 10, Regio IX, o afresco mostra uma bandeja de prata com uma taça de vinho, uma massa achatada — interpretada pelos arqueólogos como provável focaccia —, romã, tâmaras e frutas secas, além de uma guirlanda de medronhos amarelos. Pontos amarelos e ocres sugerem especiarias e, possivelmente, moretum, uma pasta de ervas.

 

A imagem pertence à tradição dos xenia, ligada aos presentes de hospitalidade oferecidos aos hóspedes — uma herança helenística que nas cidades vesuvianas aparece em cerca de 300 representações conhecidas. O diretor do parque, Gabriel Zuchtriegel, chamou atenção para o contraste entre uma refeição modesta e o luxo das bandejas de prata.

 

A casa era ligada a uma padaria, parcialmente escavada no século XIX. O pintor permanece anônimo, mas sua habilidade servia à construção da imagem social do proprietário.

 

Onde olhar: a bandeja. O alimento é simples; o suporte é caro. A forma de servir comunica mais que o servido.

 

3. Seis caquis

Atribuída a Muqi · século XIII, dinastia Song do Sul, China · Tinta sobre papel · Ryōkō-in, Daitoku-ji, Kyoto

 

Seis frutos, cada um com uma intensidade diferente de tinta, dispostos sobre uma ampla superfície vazia. Nenhuma mesa, nenhum recipiente, nenhuma promessa de fartura.

 

A obra oferece um contraponto necessário às mesas de ostentação: seu interesse está nas diferenças entre objetos semelhantes, na qualidade da pincelada e na observação concentrada. Vale a cautela, porém. A leitura da pintura como emblema de uma "simplicidade zen" é em boa parte uma construção do início do século XX, ocidental e japonesa. Pesquisadores hoje trabalham com uma compreensão mais matizada: pinturas de tinta como esta conviviam, nos templos zen, com uma enorme variedade de objetos visuais.

 

Produzida na China por um monge e levada ao Japão por monges que retornavam de estudos, a obra era exibida no tokonoma durante encontros de chá — retirada por algumas horas e guardada em seguida.

 

Onde olhar: o espaço vazio. Ele ocupa mais superfície que os frutos e não é ausência de assunto.

 

4. Tríptico da Anunciação (Retábulo de Mérode)

Oficina de Robert Campin · c. 1427–1432 · Países Baixos meridionais · Óleo sobre carvalho, painel central 64,1 × 63,2 cm · The Met Cloisters (56.70a–c)

 

No painel central, uma mesa de interior doméstico sustenta um livro, uma jarra com lírios e um castiçal cuja vela acabou de ser apagada. Os objetos participam de uma narrativa religiosa, mas estão num ambiente reconhecível para quem encomendou a obra.

 

É exatamente essa aproximação que interessa: ao situar a Anunciação numa casa burguesa, a pintura traz a devoção para dentro da vida privada e, de quebra, exibe os recursos de seus proprietários — identificados no painel lateral e reconhecíveis pelos brasões no vitral da janela central.

 

A atribuição à oficina, e não ao artista, é significativa. A obra foi executada em etapas e por mãos diferentes; Campin dirigia um ateliê em Tournai.

 

Onde olhar: a vela apagada. É um detalhe teológico e, ao mesmo tempo, um objeto doméstico caro pintado com precisão de inventário.

 

Ressalva: antecedente do gênero, não uma natureza-morta autônoma.

 

5. Banca de carnes com a Sagrada Família distribuindo esmolas

Pieter Aertsen · 1551 · Antuérpia · Óleo sobre madeira, 115,6 × 168,9 cm · North Carolina Museum of Art

 

Carnes, peixes e outros alimentos ocupam o primeiro plano em escala monumental. Ao fundo, pequena e quase escondida, a Sagrada Família distribui esmolas.

 

O museu lê a obra a partir de duas ideias relacionadas: o alimento do corpo e o alimento do espírito. A desproporção entre as duas cenas é o que faz a pintura funcionar — a fartura visual ocupa mais espaço que o gesto de caridade, e o observador é obrigado a relacionar apetite e obrigação moral. Segundo a instituição, Aertsen é creditado como inventor da cena de gênero monumental, invertendo a hierarquia tradicional da composição: um gesto que chocou o público e influenciou a pintura flamenga seguinte.

 

A obra foi tão admirada que existem pelo menos outras três versões de 1551 saídas da oficina, em Uppsala, na Fundación Banco Santander e no Bonnefanten Museum.

 

Onde olhar: o fundo. Você precisa procurar a cena sagrada — e essa dificuldade é o argumento da pintura.

 

6. Cesta de frutas

Caravaggio · entre 1597 e o início do século XVII · Óleo sobre tela, 47 × 61 cm · Pinacoteca Ambrosiana, Milão

 

Frutos frescos convivem com cascas danificadas e folhas que secam e enrugam. A cesta avança ligeiramente sobre a borda em que se apoia.

 

A Ambrosiana é explícita na leitura: o realismo extremo com que se justapõem frutos frescos e frutos já apodrecidos, e folhas que progressivamente secam, torna perceptível "o dinamismo do tempo que passa inexoravelmente". Mas a pintura também demonstra outra coisa — o valor que a observação minuciosa havia adquirido, e a capacidade de tornar objetos comuns visualmente irrecusáveis.

 

A relação com a biografia é direta: no início da carreira em Roma, Caravaggio trabalhou pintando frutas e flores em oficinas de outros mestres. A cesta pertenceu ao cardeal Federico Borromeo e entrou na Ambrosiana com sua doação, em 1618 — prova de que um assunto aparentemente modesto podia interessar a um colecionador de grande prestígio.

 

Onde olhar: a folha enrugada à direita. A imperfeição não é descuido: é o assunto.

 

7. Natureza-morta com queijos, amêndoas e pretzels

Clara Peeters · c. 1615 · Óleo sobre madeira, 34,5 × 49,5 cm · Mauritshuis, Haia (inv. 1203)

 

Sobre um prato de estanho, três queijos: provavelmente um Edam maduro à frente, atrás dele um meio-queijo grande e, sobre este, um pedaço de queijo de ovelha. Ao redor, manteiga, pães — e bens de outros circuitos: um prato azul-e-branco Wan Li com figos secos, amêndoas e passas, e um copo com tampa parcialmente dourado à la façon de Venise.

 

A convivência entre o alimento local e o objeto importado é a informação central. Até o queijo carrega dado comercial: o museu identifica na superfície superior a marca circular deixada pela retirada de uma amostra por um inspetor.

 

Pouco se sabe da vida de Peeters, associada a Antuérpia. Ela, no entanto, se coloca duas vezes dentro da própria mesa: assina a faca — uma faca de casamento, de cabo de prata decorado com alusões ao amor e ao matrimônio, do tipo presenteado em estojo junto com um garfo — e se autorretrata, minúscula, refletida na tampa metálica da jarra.

 

Onde olhar: a tampa da jarra. Há uma mulher de touca branca ali dentro. É a pintora.

 

8. Natureza-morta vanitas

Pieter Claesz · 1630 · Óleo sobre madeira, 39,5 × 56 cm · Mauritshuis, Haia (inv. 943)

 

Uma caveira, um relógio, um copo vazio e uma vela apagada. A composição não registra posses nem hábitos: está organizada para lembrar que a vida e seus prazeres terminam.

 

O relógio é o objeto mais interessante do conjunto — um artefato caro, de manufatura sofisticada, que aqui representa exatamente aquilo que não se pode comprar. O museu observa a paleta reduzida a marrons e verdes, com um único acento cromático: o azul da fita do relógio.

 

Claesz, ativo em Haarlem, construiu reputação justamente com essa contenção. Sua especialização mostra como um mercado de pintura consolidado permitia sustentar uma carreira em torno de pequenas diferenças de luz, matéria e composição.

 

Onde olhar: a fita azul. Numa pintura sobre a inutilidade dos bens, é a única cor que o pintor se permitiu.

 

9. Naturezas-mortas brasileiras

Albert Eckhout · c. 1637–1644 · Óleo sobre tela · Nationalmuseet, Copenhague

 

Abacaxis, mamões, melancias e outros frutos tropicais apresentados com destaque para volume, textura e variedade. O Museu Nacional da Dinamarca guarda 24 pinturas de ou atribuídas a Eckhout — retratos de pessoas de diferentes origens e 12 naturezas-mortas de frutas e plantas.

 

Eckhout chegou ao Brasil em 1637 com Johan Maurits van Nassau-Siegen. As obras foram doadas em 1654 ao rei Frederico III da Dinamarca. O museu registra que as interpretações divergem: para alguns, expressão da ostentação de governantes sobre a natureza e sobre as pessoas; para outros, produção de interesse natural-histórico e etnográfico. Provavelmente foram concebidas como decoração de câmaras de arte principescas — os retratos como painéis de parede, as naturezas-mortas sobre portas.

 

O trabalho estava inserido numa ocupação interessada na economia açucareira e sustentada pela escravidão. A leitura colonial tem base histórica sólida; o que a pintura isolada não documenta são as condições de produção dos alimentos que exibe.

 

Onde olhar: o abacaxi. Ele está ali como amostra de território, não como sobremesa.

 

10. Natureza-morta com o corno de beber da guilda de São Sebastião

Willem Kalf · c. 1653 · Óleo sobre tela, 86,4 × 102,2 cm · National Gallery, Londres (NG6444)

 

Lagosta, limão, taças, prataria e um tapete turco. A National Gallery observa que todos esses itens eram raros e caros no século XVII, e destaca o domínio de Kalf sobre os brilhos na trama do tapete e o lustro da prata e do vidro.

 

O corno de beber tem montagem de prata com o martírio de São Sebastião — o que, para o museu, indica que a obra foi provavelmente encomendada por um ou mais membros da guilda dos arqueiros de São Sebastião, em Amsterdã. O suporte esculpido da mesa toma a forma de Cupido, reforçando o tema do arco e da flecha. Os objetos, portanto, não expressam apenas riqueza: expressam pertencimento institucional.

 

Kalf se estabeleceu em Amsterdã em 1653, aos 34 anos, e a pintura surge logo depois, no momento em que ele consolidava sua posição como o principal nome do pronkstilleven — a natureza-morta de ostentação.

 

Onde olhar: o pé da mesa. Um Cupido segurando arco, numa mesa encomendada por arqueiros.

 

11. Natureza-morta com flores sobre uma mesa de mármore

Rachel Ruysch · 1716 · Óleo sobre tela, 48,5 × 39,5 cm · Rijksmuseum, Amsterdã (SK-A-2338)

 

Mais de dez espécies de flores e vários insetos. O Rijksmuseum registra o dado decisivo: as flores representadas florescem em épocas diferentes do ano, o que torna impossível montar aquele buquê na realidade.

 

O arranjo é, portanto, uma construção — e uma construção baseada em conhecimento. Ruysch estudou exemplares vivos e preparados, o que lhe permitia compor com exatidão botânica algo que a natureza nunca oferece de uma vez. A pintura conserva uma floração ideal e transforma a observação da natureza em objeto de coleção.

 

Ela cresceu em contato com o gabinete de curiosidades do pai, Frederik Ruysch, professor de anatomia e botânica, e construiu em vida uma das mais sólidas reputações europeias no gênero.

 

Onde olhar: o conjunto inteiro. Nenhum jardim do mundo produziria aquele buquê num único dia.

 

12. A raia

Jean Siméon Chardin · 1728 · Óleo sobre tela, 114,5 × 146 cm · Museu do Louvre (INV 3197)

 

Uma raia aberta e suspensa divide o espaço com ostras, peixes, utensílios, uma jarra e um gato que se aproxima. A imagem mostra uma etapa anterior à refeição: o alimento ainda precisa ser manipulado, limpo, preparado — e a cozinha aparece com tudo o que ela tem de material e desagradável.

 

Chardin desenvolveu essa pintura de observação numa França que apreciava o refinamento rococó. Sua obra permite investigar o valor artístico que se podia atribuir à matéria bruta de uma cozinha.

 

A ligação biográfica é decisiva e documentada: A raia foi apresentada como peça de recepção (morceau de réception) à Académie royale de peinture et de sculpture em 1728. Ficou na coleção da Academia até a Revolução, quando foi confiscada e exposta no Louvre a partir de junho de 1796. Ou seja: o tema considerado menor foi exatamente o que lhe abriu a porta da instituição.

 

Onde olhar: o gato. Ele introduz tempo e ameaça numa cena que, sem ele, seria só matéria parada.

 

13. Natureza-morta

Estêvão Silva · 1888 · Óleo sobre tela, 90 × 84 cm · Pinacoteca de São Paulo

 

Aves, frutas e tubérculos dispostos num espaço raso, entre áreas alternadas de luz e sombra. Os alimentos aparecem em estado relativamente bruto, ainda próximos de galhos e raízes: há fartura, mas não encenação de luxo.

 

O ano situa a pintura no momento da abolição da escravidão no Brasil. Isso não comprova uma mensagem abolicionista na tela — e seria leviano afirmar que comprova. Torna, porém, incontornável saber quem a pintou.

 

Estêvão Silva foi, segundo a Pinacoteca, o primeiro artista negro a se destacar entre os alunos da Academia Imperial de Belas Artes, provavelmente descendente de pais africanos escravizados ou libertos, e viveu em situação bastante precária. O crítico Luiz Gonzaga Duque Estrada elogiava suas frutas "saborosíssimas", capazes de desafiar o paladar de quem olhava.

 

Onde olhar: a raiz ainda suja. Essa é uma fartura que não passou pela copa.

 

14. Maçãs e laranjas

Paul Cézanne · c. 1899 · Óleo sobre tela, 74 × 93 cm · Musée d'Orsay, Paris (RF 1972)

 

Frutas, louça de faiança e um tecido drapeado que fecha a perspectiva à maneira das naturezas-mortas flamengas do século XVII. Segundo o Orsay, a construção espacial é complexa e a percepção dos objetos é declaradamente subjetiva: o espaço parece instável, e ainda assim o conjunto se equilibra pelo rigor da composição.

 

Aqui o gênero muda de função. Os objetos cotidianos deixam de ser principalmente signos sociais e passam a ser instrumentos para investigar como vemos e como uma imagem se constrói. O assunto doméstico entra, por essa porta, nas transformações da pintura moderna.

 

A obra pertence a uma série de seis naturezas-mortas produzidas no ateliê parisiense de Cézanne em 1899, com os mesmos acessórios reaparecendo de tela em tela — sinal de uma pesquisa continuada, não de um motivo casual.

 

Onde olhar: a borda da mesa. Ela não fecha. E o quadro não cai.

 

15. Livros e objetos de letrados

Artista coreano não identificado · início do século XX · Biombo de dez painéis, tinta e cor sobre seda, 175,3 × 457,2 cm · The Metropolitan Museum of Art (2005.385)

 

Volumes empilhados, papel, tinta, pincel e pedra de tinta, vasos de bronze arcaico, porcelanas, frutas, plantas floridas, pequenos móveis. No painel 3, penas de pavão num vaso; nos painéis 2 e 5, paisagens a tinta; no painel 6, um tabuleiro de jogo. E, no painel 10, um relógio de pêndulo com algarismos e letras romanas.

 

A obra prolonga a tradição coreana do munbangdo — pintura do gabinete de estudo —, gênero de natureza-morta surgido no século XVIII a partir de encomendas da corte com estantes em trompe-l'œil. O Met apresenta este biombo como continuação e transformação do gênero no fim do século XIX e início do XX, quando ele circula para além da corte. Caracteres auspiciosos de longevidade e boa fortuna aparecem nos vasos.

 

Não há informação suficiente para reconstruir a vida do artista. O gênero, porém, diz o essencial sobre o público: aqui, riqueza se representa como erudição — e como familiaridade com objetos vindos de fora.

 

Onde olhar: o relógio europeu no último painel. Ele está ali pelo mesmo motivo que a porcelana chinesa está na mesa de Clara Peeters.

 

16. Viva la vida

Frida Kahlo · 1954 · Óleo sobre masonite · Museo Frida Kahlo, Cidade do México

 

Melancias inteiras, cortadas e fatiadas ocupam todo o quadro. Na polpa da fruta em primeiro plano, a inscrição "VIVA LA VIDA" transforma um conjunto de frutas numa declaração.

 

É a última pintura de Kahlo. Segundo o museu, a inscrição foi acrescentada oito dias antes de sua morte, em julho de 1954, num período de saúde gravemente debilitada. O alimento perecível passa a participar de uma afirmação sobre a própria existência — e a frase adquire uma tensão particular entre vitalidade e finitude.

 

Essa relação é documentada. Leituras mais específicas — o significado de cada semente, de cada corte — devem ser apresentadas como hipóteses, não como fato.

 

Onde olhar: a letra pintada dentro da fruta. Não é legenda: está na carne da melancia.

 

O contraponto: se a vanitas de Claesz usa objetos para lembrar da morte, aqui a consciência da morte produz uma afirmação da vida.

 

17. Campbell's Soup Cans

Andy Warhol · 1962 · Acrílica e tinta esmalte metálica sobre tela, 32 painéis de 50,8 × 40,6 cm · MoMA, Nova York

 

As latas substituem a apresentação direta dos ingredientes. Cada painel corresponde a uma das 32 variedades de sopa que a empresa comercializava naquele momento; só o rótulo muda de tela para tela.

 

A série permite discutir alimentação industrializada, padronização, embalagem e publicidade. Na primeira exposição, na Ferus Gallery em Los Angeles, em 1962, as telas foram dispostas juntas sobre prateleiras, como produtos numa gôndola de mercado.

 

Warhol associava o tema à própria rotina: "Eu tomava. Fazia o mesmo almoço todo dia, por 20 anos, acho, a mesma coisa repetidas vezes." Um detalhe técnico costuma escapar: apesar de imitarem a regularidade da produção industrial, as 32 pinturas foram feitas à mão — inclusive a flor-de-lis carimbada na borda inferior de cada lata.

 

Onde olhar: a borda inferior das latas. A imitação do industrial é artesanal.

 

18. 20th March 2021, Flowers, Glass Vase on a Table

David Hockney · 2021 · Pintura digital feita em iPad, impressa em jato de tinta, edição assinada, 88,9 × 63,5 cm · Pace Gallery

 

Flores num vaso de vidro sobre uma mesa: um assunto com quatrocentos anos de tradição, executado num tablet.

 

A obra pertence a um conjunto de vinte pinturas florais feitas na primavera de 2021, na casa do artista na Normandia, durante o período de isolamento. Hockney contou que estava simplesmente sentado à mesa quando viu flores num vaso; depois percebeu que o vaso de vidro acrescentava interesse visual, porque a luz atravessava a água. A mesa, o vaso e as trocas de arranjo se tornaram assunto recorrente dentro de uma rotina espacialmente limitada.

 

Na trajetória do artista, o caso mostra continuidade de experimentação com meios: a pintura digital preserva a observação de flores e reflexos, enquanto a impressão em edições introduz outra forma de circulação da obra.

 

Onde olhar: a água no vidro. É o mesmo problema óptico de Kalf, resolvido com o dedo numa tela.

 

Ressalva: trata-se de pintura digital impressa, não de óleo sobre tela.

 

Os cruzamentos que a série permite

Mais do que uma sequência de épocas, a seleção autoriza comparar funções diferentes dos mesmos objetos.

 

Comparação

Pergunta

Nebamun · Claesz · Frida

Como alimentos e objetos expressam relações diferentes com a morte?

Pompeia · Peeters · Kalf

Quando servir e receber se tornam demonstrações de prestígio?

Peeters · Eckhout · biombo coreano

Que redes de circulação e relações de poder aparecem nos objetos?

Eckhout · Estêvão Silva

Como as frutas brasileiras mudam de sentido conforme o artista, o público e o contexto?

Ruysch · Hockney

Como uma pintura registra, reúne ou prolonga o tempo das flores?

Chardin · Warhol

O que muda quando passamos do alimento a preparar para o produto embalado?

 

Três padrões atravessam os 18 exemplos.

 

O objeto importado é constante. A porcelana Wan Li na mesa de Peeters, o tapete turco de Kalf, o relógio europeu no biombo coreano e as latas de uma corporação americana no MoMA fazem a mesma coisa em séculos diferentes: colocam o mundo dentro de casa e informam quem tem acesso a ele.

 

A deterioração é um recurso técnico, não um acidente. A folha seca de Caravaggio, a caveira de Claesz e o buquê impossível de Ruysch tratam do tempo por caminhos opostos — mostrar a passagem, nomeá-la, ou suspendê-la.

 

A abundância representada raramente coincide com a abundância vivida. A carne de Nebamun era privilégio; a bandeja de Pompeia vale mais que a refeição; a fartura pintada por Estêvão Silva convive com sua própria precariedade material; os frutos de Eckhout são inventário de um território ocupado.

 

A pergunta que melhor amarra tudo isso é simples: de onde veio tudo o que está sobre esta mesa — e quem podia sentar-se a ela?

 

Fontes

 

Atenção jurídica: as três últimas obras (Kahlo, Warhol, Hockney) e, a depender do acervo, também Caravaggio, Estêvão Silva e Cézanne exigem autorização ou licença de reprodução antes de publicação no site e no Instagram. Publicar sem licença expõe o Guia das Artes a notificação. Alternativa segura para essas três: usar apenas descrição textual, ou imagem de instalação/vitrine sob licença editorial, ou substituir por obra equivalente em domínio público.

 

Fotos
By Rachel Ruysch - www.rijksmuseum.nl : Home : Info : Pic, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=139550904
Domínio público,
Natureza-morta com carne e a Sagrada Família , em exposição na Fundación Banco Santander, 1551.
Artistas não identificados · c. 1350 a.C. · Tebas, Egito, XVIII dinastia · Pintura sobre reboco, 104,2 × 61 cm · British Museum (EA 37985)
By Willem Kalf - National Gallery, London, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=15867083
By Jean-Baptiste-Siméon Chardin - photo Shonagon 2022-06-21, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=120013608
Por Pieter Claesz - Mauritshuis, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=86340625
By Clara Peeters - www.mauritshuis.nl : Home : Info : Pic, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20034536
Por Caravaggio - Google Arts & Culture — MwEu3e99qoXUHA, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=114695163
Por Oficina de Robert Campin - From Google Art Project, artwork page, maximum resolution, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=13480460
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