Em Estado de Arte: Tocantins
Ao longo da vasta e fascinante história da arte brasileira, embarcaremos juntos em uma jornada rica, profunda e repleta de descobertas. Será uma verdadeira expedição cultural, um mergulho atento e detalhado nas inúmeras manifestações artísticas que floresceram, e ainda florescem, nos quatro cantos deste imenso e diverso país chamado Brasil.
Nosso percurso será meticuloso e revelador: exploraremos os principais movimentos artísticos de cada estado da federação, analisando suas origens, características, influências, transformações e impactos ao longo do tempo. Vamos olhar com carinho e atenção para a trajetória da arte em cada região, respeitando suas particularidades históricas, culturais e sociais, e compreendendo como cada uma contribuiu de forma singular para a formação do panorama artístico nacional. Bem-vindos mais uma vez a Em Estado de Arte: Tocantins.
Por Paulo Lorenzo Villela
Onde o Cerrado Abraça a Floresta: A Identidade Artística do Tocantins
O Tocantins é um território de singularidade cronológica e geográfica. Sendo o estado mais jovem da federação, instituído pela Constituição de 1988, ele carrega em sua gênese uma vibrante dualidade: a juventude de uma fronteira institucional em expansão e a ancestralidade profunda de uma terra habitada há milênios. Localizado na transição bioclimática entre a vastidão do Cerrado e a densidade da Amazônia Legal, o estado consolidou-se como um verdadeiro cadinho cultural, onde rotas históricas de tropeiros, fluxos migratórios contemporâneos e tradições dos povos originários convergem para criar uma produção estética potente e singular.
A arte tocantinense desafia a linearidade do tempo. Ela se manifesta tanto na rigidez planejada de sua arquitetura modernista quanto na maleabilidade orgânica de suas matérias-primas naturais.
A Geometria e a Pedra: O Contraste entre Palmas e as Cidades Históricas
A paisagem arquitetônica do Tocantins é cindida por um fascinante diálogo temporal. De um lado, ergue-se Palmas, a última capital planejada do século XX. Projetada pelos arquitetos Walfredo Antunes e Luiz Fernando Cruvinel, a cidade adota uma malha urbana de linhas ortogonais, grandes eixos monumentais e rotatórias que reconfiguram a monumentalidade modernista. A arquitetura de Palmas, com suas amplas esplanadas e edifícios públicos que dialogam com a luz do Cerrado, serve como suporte para intervenções urbanas, murais e festivais de artes visuais contemporâneas, atraindo criadores de diversas regiões do país.
Em contraposição a essa efervescência moderna, o estado preserva núcleos urbanos coloniais de imenso valor histórico e estético, como Natividade e Porto Nacional. Erguidas no ciclo do ouro do século XVIII, essas cidades apresentam um casario colonial preservado, igrejas de pedra-sabão e arcos que remetem ao barroco sertanejo. Para os artistas visuais e fotógrafos tocantinenses, esse contraste plástico entre o concreto planejado da capital e as fachadas caiadas das cidades históricas oferece uma rica fonte iconográfica, tensionando as noções de progresso e memória.
Ouro da Terra: O Capim Dourado do Jalapão como Alta Estética
Na imensidão semiárida do Parque Estadual do Jalapão, a natureza oferece uma das matérias-primas mais fascinantes da visualidade brasileira: o capim-dourado (Syngonanthus nitens). O trançado das hastes dessa sempre-viva, costuradas com a fibra da palmeira do buriti, transcendeu o conceito tradicional de artesanato utilitário para atingir o "estado da arte" do design sustentável contemporâneo.
Essa técnica secular foi preservada e refinada na comunidade quilombola de Mumbuca, fruto do saber compartilhado por indígenas Xerente e antigos moradores locais. Os objetos manufaturados (que podem ser desde cumbucas utilitárias a joias luxuosas) destacam-se pela precisão geométrica do trançado e pelo brilho metálico natural da planta. Ao conquistar passarelas internacionais e galerias de design em grandes centros urbanos, o capim-dourado do Jalapão tornou-se um manifesto estético sobre a sofisticação que emerge da simbiose harmônica entre a preservação ecológica e a salvaguarda da identidade comunitária.
Barro e Cosmologia: As Bonecas Ritxoko do Povo Iny Karajá
A produção artística indígena no Tocantins encontra uma de suas expressões mais elevadas na cerâmica utilitária e figurativa do povo Iny Karajá, habitante secular das margens do Rio Araguaia e da Ilha do Bananal. As bonecas Ritxoko, modeladas exclusivamente pelas mulheres ceramistas da etnia, são reconhecidas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como Patrimônio Cultural do Brasil e representam uma linguagem visual de profunda complexidade.
Modeladas em argila, queimadas em fogueiras a céu aberto e pintadas com pigmentos naturais como o carvão, o urucum e o jenipapo, as Ritxoko não possuem fins puramente lúdicos ou comerciais. Elas são suportes de transmissão de saberes, sintetizando em seus corpos volumosos e gráficos geométricos a mitologia, os rituais, as estruturas de parentesco e os papéis sociais do povo Karajá.
A Fé e o Tambor: A Ópera Coletiva dos Festejos do Divino
A expressão cultural do Tocantins atinge uma dimensão de "obra de arte total" durante os tradicionais Festejos do Divino Espírito Santo, com destaque para as celebrações realizadas no município de Natividade. Essa festividade, que remonta ao período colonial, transforma o espaço urbano em um grande cenário teatral e sinestésico, unindo devoção religiosa, musicalidade e espetáculo coreográfico.
O ponto alto da manifestação é a dança da Sússia (ou Suça), uma coreografia de matriz africana caracterizada por movimentos circulares rápidos e batidas sincopadas de tambores de tronco, conhecidos como tambores de sussa. Os foliões, vestidos com trajes tradicionais, realizam giros e evoluções que desafiam a gravidade, acompanhados por cantos responsoriais de forte carga dramática. Por definição, as comemorações de Natividade são uma ópera popular, destacando a inevitável fusão da cultura do velho mundo com as tradições milenares daqueles que já estavam aqui. Como o barro e a água que se misturam em argila, a tradição é absorvida, remoída, mastigada, triturada pelo tempo e sai do outro lado tão parte da terra quanto o barro originário.
Encerramento: A Juventude Ancestral do Tocantins
A jornada pela produção cultural do Tocantins revela um estado que, longe de ser uma página em branco na história da arte nacional, consolidou-se como um território de confluência criativa vital. Do rigor estrutural do planejamento modernista de Palmas à fluidez cintilante do capim dourado do Jalapão; da densidade mítica das bonecas Ritxoko à vibração percussiva da Sússia, o estado demonstra que a juventude geográfica pode caminhar lado a lado com a maturidade estética.
Referências
ALMEIDA, Maria Lúcia. O Design da Terra: Capim Dourado e Identidade Quilombola no Jalapão. Palmas: Editora Universitária, 2019.
IPHAN. As Bonecas Ritxoko do Povo Karajá: Inventário Nacional de Referências Culturais. Brasília, DF: Iphan, 2012.
MARTINS, José Ricardo. Entre o Concreto e a Caiada: Arquitetura e Memória Visual no Tocantins. Goiânia: Kelps, 2015.
NATIVIDADE, Secretaria de Cultura de. Tradição e Ritmo: A Dança da Sússia nos Festejos do Divino. Natividade: SECULT, 2022.
SOUZA, Fernando de. Arte Contemporânea no Cerrado: A Vanguarda Plástica de Palmas. São Paulo: Iluminuras, 2020.










