Carregando... aguarde
Cildo Meireles e rio oir - Guia das Artes
Cildo Meireles e rio oir
Cildo Meireles. Foto: Edouard Fraipont. Fonte: acervo da Ocupação Cildo Meireles, Itaú Cultural.
Cildo Meireles e rio oir
A obra que o artista termina é a mesma que ele imaginou?
inserido em 2026-10-06 12:05:13
Criador de conteúdo no iArremate e Guia das Artes
Veja outras colunas de João Pedro S.B.P. Villela
Conteúdo

Cildo Meireles e as transformações de rio oir

Na entrevista a Guilherme Wisnik, o artista conta como uma ideia atravessou décadas e mudou durante sua realização. O percurso de rio oir aproxima som, território e a capacidade de rever um projeto diante do que se encontra.

 

“O processo de realização interfere na forma final.”

 

A observação de Cildo Meireles, em entrevista ao curador Guilherme Wisnik preservada no acervo da Ocupação do Itaú Cultural, oferece uma maneira de pensar o trabalho artístico para além da imagem pronta. Entre imaginar e concluir, uma obra encontra materiais, pessoas e circunstâncias que podem modificar sua direção. [1]

 

Em rio oir, esse intervalo foi especialmente longo. Concebido em 1976 e realizado entre 2009 e 2011, o projeto tomou a forma de um disco com sons de águas e de risadas. [2]

 

Sua história permite acompanhar uma criação que se transforma ao ganhar condições de existir. Mais do que procurar o quanto o resultado corresponde ao plano, podemos perguntar o que o artista descobriu durante o percurso.

Uma ideia guardada por décadas

A apresentação da Ocupação informa que o projeto foi executado e apresentado pela primeira vez naquele contexto. A realização envolveu viagens de captação, documentação fotográfica, cartografia e um espaço de escuta. [3]

 

Essa passagem entre uma anotação e uma experiência compartilhada ajuda a perceber que uma ideia pode ter diferentes tempos. Há o momento em que surge, o período em que permanece guardada e a ocasião em que encontra condições para ser desenvolvida.

 

A demora não prova, sozinha, maturação ou qualidade. No caso de rio oir, interessa observar o que se tornou possível quando o projeto saiu do papel.

 

Uma proposta que dependesse apenas de sons prontos teria uma relação com os lugares. Viajar para gravar passou a estabelecer outra.

Quando a imagem não guardou o som

Cildo relata que, numa tentativa anterior de realizar o trabalho, procurou material de arquivo sobre a pororoca. Encontrou uma reportagem gravada de helicóptero: o motor dominava o áudio que ele desejava aproveitar. [1]

 

O episódio é pequeno, mas esclarecedor. Um registro pode mostrar um fenômeno com nitidez e preservar muito pouco de sua experiência sonora.

 

Essa diferença interessa à arte porque o modo de registrar já faz escolhas. Onde se coloca um microfone, o que permanece perto e o que se perde ao fundo interferem no material disponível. A câmera e o gravador não recolhem um lugar inteiro.

 

Em nossa leitura, essa dificuldade abre uma das questões mais produtivas de rio oir: o que conseguimos conhecer quando mudamos o sentido ao qual damos atenção?

Um título que pode ser percorrido nos dois sentidos

A sequência rio oir forma um palíndromo: desconsiderado o espaço, pode ser lida igualmente de trás para a frente. No texto da exposição, Wisnik aproxima esse espelhamento dos dois lados do vinil. “Rio” permite pensar tanto no curso de água quanto no verbo rir; “oir” remete ao espanhol oír, ouvir. [2]

 

O jogo verbal oferece um ponto de partida para a escuta. Águas e risadas podem ser aproximadas por variações, repetições, pausas e intensidades, embora venham de experiências muito diferentes.

 

Essa aproximação também evita que o título funcione apenas como identificação de um assunto. Ele oferece ao ouvinte uma pequena operação: voltar, inverter, relacionar.

 

Podemos acompanhar o trabalho por essa chave sem precisar fixar um significado para cada som. Uma risada, por exemplo, pode provocar curiosidade, desconforto ou contágio. O que sentimos depende também de sua duração e do contexto em que a ouvimos.

O território passou a participar da obra

A documentação do projeto acompanha quatro regiões de captação: Águas Emendadas, no Distrito Federal; as Cataratas do Iguaçu; a foz do São Francisco; e a região da pororoca do rio Araguari, no Amapá. [4]

 

A distância entre esses lugares é importante. O disco aproxima registros que não seriam ouvidos juntos numa única paisagem.

 

Na entrevista, Cildo explica que o contato com a realidade das viagens alterou a ideia inicial. O encontro com nascentes comprometidas trouxe uma dimensão crítica à pesquisa. Sua decisão de organizar as águas em intensidade decrescente também integrou essa transformação. [1]

 

Esse é o ponto em que a fala sobre o processo ganha uma consequência concreta. O material encontrado participa da maneira de organizar a obra.

 

É preciso situar o relato no período de sua realização. Trata-se da experiência e da leitura do artista, não de um levantamento científico sobre a situação atual dos rios brasileiros.

Editar também é construir

O texto de Wisnik destaca a presença, no trabalho, de águas associadas à ação humana, como torneiras e descargas. Ele relaciona essa mistura à passagem entre a dimensão poética do projeto e as questões políticas encontradas nas viagens. [2]

 

Essa é uma leitura curatorial que ajuda a perceber a importância da montagem. Uma sequência sonora estabelece aproximações, diferenças e expectativas. A ordem em que escutamos pode modificar o sentido atribuído a um registro.

 

Por isso, conhecer os locais de gravação não encerra a experiência. O trabalho também está nas relações construídas entre os sons.

 

Há um território percorrido pela equipe e outro que o ouvinte pode imaginar durante a escuta. Essa segunda geografia depende tanto do material quanto da forma de apresentá-lo.

Uma autoria que se realiza com outras pessoas

A ficha técnica identifica Cildo na concepção e realização e também registra o trabalho de Filipe Magalhães e Silvio Carreira na gravação e na produção sonora. O design é de Noni Geiger e Alice Chekroun. [5]

 

Esses nomes permitem olhar para a obra como resultado de decisões articuladas. Captar, selecionar, editar, mixar e apresentar são atividades que exigem conhecimentos e escolhas.

 

A documentação dos bastidores reforça essa dimensão: há registros da equipe, de equipamentos, de viagens e do trabalho de captação. [6]

 

Reconhecer essa colaboração ajuda a tornar mais precisa a ideia de criação. Uma assinatura pode reunir uma proposta cuja realização depende de diversas pessoas. Compreender quem participou amplia nossa percepção do trabalho envolvido.

Uma obra de arte precisa ser vista?

rio oir também abre a segunda pergunta que acompanha esta matéria. Sua experiência central é sonora, embora o projeto tenha disco, design, fotografias e uma situação expositiva.

 

O próprio Itaú Cultural apresenta a obra como um vinil destinado à escuta no espaço concebido para a Ocupação. O acervo digital mantém uma página dedicada ao áudio. [3, 5]

 

Uma fotografia do disco pode documentar seu aspecto, mas deixa de fora aquilo que acontece na duração da escuta. Para conhecer o trabalho, é necessário considerar esse tempo.

 

Essa relação entre materiais e audição aparece em outros projetos de Cildo. Marulho, por exemplo, é descrito na ficha do MAM Rio como uma instalação de madeira, livros e áudio. [7]

 

O exemplo ajuda a ampliar a pergunta inicial: observar arte pode envolver diferentes sentidos e modos de atenção. Às vezes, compreender uma obra exige permanecer com algo que uma imagem isolada não consegue transmitir.

Por que retomar essa entrevista agora?

Revisitamos a conversa porque ela oferece um exemplo preciso de uma questão frequente na criação: quanto espaço um projeto deixa para aprender durante sua realização?

 

Planos ajudam a organizar decisões e recursos. Também podem ser revistos quando o contato com o material apresenta algo que não estava previsto.

 

Isso não significa que toda mudança torne uma obra melhor, nem que preparar um trabalho seja dispensável. O que interessa em rio oir é a capacidade de perceber uma diferença e decidir o que fazer com ela.

 

Essa atenção vale também para quem acompanha arte. Quando perguntamos apenas pela intenção inicial, podemos deixar escapar o que a execução acrescentou, deslocou ou tornou impossível.

 

A obra concluída guarda escolhas que o primeiro esboço ainda não tinha como conter.

Um convite para escutar

A entrevista de Cildo oferece uma possibilidade de leitura; o contato com a obra pode produzir outras. Vale acessar o acervo do Itaú Cultural e dedicar um tempo à página de escuta de rio oir.

 

Ao ouvir, observe as mudanças de intensidade, as transições e as relações que você estabelece entre os sons. Depois, retome as imagens das viagens. O que muda quando a paisagem é conhecida primeiro pela audição?

 

Conheça a página de escuta de rio oir no Itaú Cultural.

 

O Guia das Artes continuará revisitando entrevistas de artistas, aproximando suas palavras de obras, processos e contextos.

 

Fontes e referências:

 

Nota editorial: a frase de abertura foi conferida na entrevista integral em português. As interpretações do Guia das Artes estão diferenciadas dos relatos do artista e do texto do curador. A página da entrevista não informa uma data específica para sua realização; 2009–2011 é o período documentado de realização de rio oir.

 

Compartilhe
Comente