Carregando... aguarde
Beatriz Milhazes: aprendizado e construção de uma linguagem - Guia das Artes
Beatriz Milhazes: aprendizado e construção de uma linguagem
Beatriz Milhazes, Banho de rio, 2017, acrílica sobre tela. Foto: Manuel Águas & Pepe Schettino. Reprodução de obra de Beatriz Milhazes
Beatriz Milhazes: aprendizado e construção de uma linguagem
Quanto de uma artista se constrói trabalhando? Uma leitura de Beatriz Milhazes
inserido em 2026-09-29 19:58:00
Criador de conteúdo no iArremate e Guia das Artes
Veja outras colunas de João Pedro S.B.P. Villela
Conteúdo

 

Quanto de uma artista se constrói trabalhando? Uma leitura de Beatriz Milhazes

Uma conversa de 2017 com Pedro Bial abre uma investigação sobre aprendizado e criação. Da invenção de uma técnica às mudanças no ateliê, a trajetória de Milhazes ajuda a enxergar o trabalho que uma pintura pronta nem sempre revela.

 

Diante de uma pintura de Beatriz Milhazes, é possível se deixar levar pelas cores antes de perguntar como aquela imagem foi construída. Círculos, flores e padrões ocupam o espaço, se sobrepõem e disputam nossa atenção. O encontro pode ser imediato; a construção da obra envolve outra duração.

 

Essa diferença é um bom ponto de partida para revisitar sua participação no Conversa com Bial, exibido em 3 de julho de 2017. Na apresentação oficial de um dos trechos, o Globoplay associa a explicação da artista à arte como manifestação humana e à disposição para se desenvolver. É desse recorte, apresentado pela emissora, que partimos para investigar uma questão: quanto de uma artista se constrói trabalhando? [1]

 

A pergunta nos leva além da ideia de que uma obra nasce inteiramente pronta na imaginação de alguém. Permite olhar para o que se aprende com materiais, referências, dificuldades e escolhas feitas ao longo do tempo.

Por que voltar a essa conversa agora?

Há um encontro entre o arquivo e o presente. Em setembro de 2026, Pietrolina passou a integrar a ligação subterrânea entre os dois edifícios do MASP. Em conversa publicada pela Forbes, Milhazes comentou o desafio de levar o desenho à escala da arquitetura e explicou como experiências em outros meios alimentam sua pintura. [2]

 

Esse relato recente oferece uma maneira concreta de retomar o tema de 2017. Uma linguagem reconhecida continua sendo colocada à prova quando encontra outra escala, outro suporte ou outra situação.

 

Nosso interesse está nessa continuidade do aprendizado. Quando uma obra chega ao público, boa parte de suas decisões já ficou para trás. Revisitar entrevistas permite recuperar algo desse percurso e aproximar a imagem final das questões que a tornaram possível.

A palavra “dom” explica muito pouco do processo

Chamar alguém de talentoso pode expressar admiração. Mas, quando essa palavra encerra a conversa, o desenvolvimento de uma linguagem fica difícil de enxergar.

 

Onde entram a observação, o estudo e a capacidade de avaliar o próprio trabalho? Como reconhecer uma escolha que amadureceu depois de várias tentativas? O que uma dificuldade com o material pode ensinar?

 

Essas perguntas não exigem negar diferenças de sensibilidade ou facilidade entre as pessoas. Elas ampliam o que consideramos relevante na formação artística.

 

Também evitam uma conclusão igualmente simplista: a de que bastaria trabalhar muito para obter qualquer resultado. Não há uma quantidade de horas capaz de garantir a importância de uma obra. A prática importa pelo tipo de atenção que mobiliza, pelos problemas que formula e pelas decisões que permite rever.

Uma formação que inclui aprender e ensinar

A biografia oficial de Milhazes registra seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage entre 1980 e 1983. Mais tarde, ela atuou ali como professora de pintura e coordenadora de projetos educacionais, de 1986 a 1996. [3]

 

Essas datas ajudam a situar uma trajetória construída também em ambientes de aprendizagem e troca.

 

Ensinar envolve tornar escolhas discutíveis: observar o que outra pessoa fez, encontrar palavras para comentar uma solução e reconhecer que um mesmo problema pode admitir caminhos diferentes. Esse é um modo de pensar a relação entre ensino e criação, sem pressupor que uma experiência explique sozinha toda a produção de Milhazes.

 

A formação de uma artista tampouco termina com a escola. Cada obra pode exigir um conhecimento que o trabalho anterior ainda não havia produzido.

Em 1989, um problema abriu caminho para uma técnica

Numa entrevista concedida a Diana d’Arenberg, publicada pela Ocula em 2015, Milhazes relatou que passou por uma crise em sua maneira de se expressar em 1989. A pesquisa de procedimentos relacionados à monotipia participou da construção de uma solução própria. [4]

 

Em seu site, a artista descreve o monotransfer: motivos são pintados com acrílica sobre plástico transparente; depois de secos, são transferidos para a tela com auxílio de um médium acrílico. O procedimento permite construir a imagem por elementos e camadas. [5]

 

A relevância desse episódio vai além de uma curiosidade técnica. A maneira de trabalhar passou a oferecer possibilidades para a linguagem que estava sendo construída.

 

Nossa leitura é que o método não apenas executa uma ideia anterior. Ele também interfere no que pode ser imaginado. Uma solução material abre escolhas, favorece certos encontros entre formas e permite experimentar relações que seriam diferentes em outro procedimento.

 

Por isso, conhecer como uma pintura é feita pode mudar a maneira de observá-la.

A cor continua oferecendo problemas

Na mesma entrevista à Ocula, Milhazes descreve a cor como um campo de aprendizado contínuo. Também relata que uma obra pode permanecer em seu ateliê por um ano sem que ela a considere concluída, embora não trabalhe nela durante todo esse período. [4]

 

Esse intervalo ajuda a compreender uma atividade que nem sempre aparece em fotografias do processo: observar, esperar e voltar a avaliar.

 

Escolher uma cor envolve sua relação com as outras. Uma alteração pode mudar o peso de uma forma, aproximá-la do primeiro plano ou fazer uma área antes discreta passar a chamar atenção. Para quem olha, vale experimentar esse exercício: acompanhar uma única cor pela composição e perceber o que acontece ao seu redor.

 

A própria apresentação da exposição Maresias, na Turner Contemporary, destaca a tensão entre construção planejada e aparência de espontaneidade na pintura da artista. [6]

 

Essa tensão torna o trabalho especialmente interessante. A experiência visual pode ser vibrante sem revelar, de imediato, a quantidade de decisões que a sustenta.

Uma obra para observar de perto: Avenida Paulista

A pintura Avenida Paulista, de 2020, oferece um exemplo de como circunstâncias de trabalho podem modificar o processo.

 

Segundo o MASP, a redução das idas de Milhazes ao ateliê durante a pandemia intensificou o uso de croquis e planejamento à distância. A artista também introduziu uma caneta de tinta acrílica para realizar detalhes. [7]

 

Essa informação muda nossa aproximação da tela. Podemos procurar relações entre áreas amplas e pequenas intervenções, entre a estrutura da composição e o trabalho de detalhamento.

 

O texto curatorial do museu também aproxima suas listras em violeta escuro e cru da geometria de Luís Sacilotto. A referência a São Paulo passa, assim, por uma conversa com a história da arte. [7]

 

Observar a obra por esse caminho permite perceber que uma imagem pode reunir repertório cultural, decisões técnicas e condições muito concretas de produção. O trabalho não acontece fora da vida que o cerca.

Uma linguagem própria também se alimenta de outras

A exposição Beatriz Milhazes: Avenida Paulista, realizada pelo MASP e pelo Itaú Cultural em 2020–2021, apresentou referências que atravessam sua produção: modernismo, barroco, arte popular, moda e natureza, entre outras. O texto da mostra cita artistas como Tarsila do Amaral, Sonia Delaunay, Bridget Riley e Ione Saldanha. [8]

 

Ter referências, nessa perspectiva, faz parte da construção de um vocabulário. A questão passa a ser o que acontece quando elementos de origens diferentes entram em relação.

 

Uma forma pode ser retomada, transformada e reorganizada. Uma combinação aprendida numa obra pode deixar de funcionar em outra. Desenvolver uma linguagem própria envolve essa capacidade de selecionar e rever.

 

É uma ideia útil também para quem começa a estudar arte: conhecer o que já foi feito pode ampliar as possibilidades de criação e tornar as escolhas mais conscientes.

O aprendizado inclui mudar de meio

O relato recente sobre Pietrolina acrescenta outra dimensão. Milhazes descreve um intercâmbio entre pintura e práticas como colagem, escultura, serigrafia e cenografia. As experiências circulam entre os meios e trazem novas questões ao trabalho. [2]

 

Isso permite pensar a dedicação de uma maneira mais ampla do que a permanência diante da mesma tela. Mudar de escala, de material ou de problema também pode ser uma forma de desenvolver a pesquisa.

 

Ao mesmo tempo, estudar e experimentar dependem de condições. Tempo, materiais, espaços de formação e oportunidades de troca não estão igualmente disponíveis. Reconhecer o trabalho de uma artista não significa transformar sua trajetória numa receita que todos poderiam repetir.

Uma pergunta que continua aberta

Quanto de uma artista se constrói trabalhando? O percurso de Milhazes não oferece uma proporção entre talento e esforço. Oferece situações: uma formação, uma dificuldade que provoca pesquisa, uma técnica que abre possibilidades, uma obra que exige espera, um novo espaço que pede outras soluções.

 

Talvez possamos levar essa atenção para a próxima pintura que encontrarmos. Além de perguntar o que ela representa, podemos observar quais decisões a organizam e que tipo de investigação ela torna visível.

 

O Guia das Artes continuará revisitando entrevistas de artistas brasileiros e internacionais, aproximando suas palavras das obras, dos processos e dos contextos em que trabalharam.

Assista e aprofunde

Fontes e referências:

Compartilhe
Comente