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Acre
inserido em 2026-01-15 17:23:17
Estudante de história e redator do Guia das Artes.
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Em Estado de Arte: Acre

Ao longo da vasta e fascinante história da arte brasileira, embarcaremos juntos em uma jornada rica, profunda e repleta de descobertas. Será uma verdadeira expedição cultural, um mergulho atento e detalhado nas inúmeras manifestações artísticas que floresceram — e ainda florescem — nos quatro cantos deste imenso e diverso país chamado Brasil.

Nosso percurso será meticuloso e revelador: exploraremos os principais movimentos artísticos de cada estado da federação, analisando suas origens, características, influências, transformações e impactos ao longo do tempo. Vamos olhar com carinho e atenção para a trajetória da arte em cada região, respeitando suas particularidades históricas, culturais e sociais, e compreendendo como cada uma contribuiu de forma singular para a formação do panorama artístico nacional. Bem-vindos mais uma vez a Em Estado de Arte: Acre.

Por Paulo Lorenzo Villela

Onde a Terra Escreve: O Acre como Território de Resistência Estética

O Acre não é apenas um estado no extremo sudoeste da Amazônia; é um palimpsesto geográfico onde a história foi escrita com sangue, borracha e, acima de tudo, resiliência. Sua integração ao Brasil, consolidada pelo Tratado de Petrópolis em 1903, forjou uma identidade cultural que não se curva a padrões eurocêntricos. Analisar o Acre sob a ótica das artes plásticas e visuais exige o reconhecimento de uma "estética do isolamento" que, paradoxalmente, é profundamente conectada com o cosmos e a terra.

Diferente de outros centros brasileiros, a arte acreana nasce do silêncio das copas das árvores e da geometria invisível das civilizações que nos precederam. É um território onde o artista não apenas observa a natureza, mas é parte integrante de sua fisiologia política e espiritual.

Geoglifos e Grafismos: A Geometria Sagrada dos Antepassados

A história da arte no Acre começa com a terra sendo usada como tela. Os geoglifos - enormes valas cavadas no solo em formas de círculos, quadrados e elipses - são a primeira manifestação de um pensamento estético monumental na região. Datados de mais de 2.000 anos, essas estruturas revelam que a Amazônia ocidental era habitada por sociedades complexas com um apurado senso de simetria e espacialidade.

Essa herança geométrica ecoa no presente através das mãos dos povos originários, especialmente os Huni Kuĩ (Kaxinawá). O Kene Kuĩ, ou "o desenho verdadeiro", é um sistema visual complexo que adorna corpos e tecelagens. Inspirado pelas visões das medicinas da floresta (como o Nixi Pae, ou Ayahuasca), o grafismo indígena acreano não é mera decoração; é uma cartografia da alma e da conexão com os seres da floresta, recentemente reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Hélio Melo: O Cronista Visual do Seringal

Se o modernismo brasileiro teve sua semana de 1922 em São Paulo, o Acre teve a trajetória solitária e brilhante de Hélio Melo (1926-2001). Seringueiro, catraieiro e poeta, Melo é o pilar da arte contemporânea acreana. Sua obra é uma "epopeia visual" da borracha. Através de uma técnica inicialmente autodidata, ele utilizou o nanquim e o extrato de folhas para denunciar a destruição da floresta e retratar o cotidiano místico e árduo do trabalhador.

A importância de Hélio Melo reside na sua capacidade de transmutar o regionalismo em universalidade. Suas árvores antropomórficas e seus jaguares oníricos não são representações ingênuas (naïfs), mas sim uma crítica ácida ao extrativismo predatório e um hino à dignidade do homem da mata. Sua presença em bienais internacionais consolidou a ideia de que a "vanguarda" também pode brotar do coração da selva.

A Consolidação Urbana: Museus, Revoluções e a Usina de Arte

A arte acreana também habita a pedra e o cal de sua capital, Rio Branco. A arquitetura de influência eclética do Palácio Rio Branco e a estética histórica do Mercado Velho dialogam com a iconografia da Revolução Acreana. O pintor peruano-acreano Jorge Rivasplata é o grande nome desta vertente, imortalizando em telas gigantescas o herói Plácido de Castro e as batalhas contra as forças bolivianas, criando um senso de "mitologia fundacional" através da pintura histórica.

Atualmente, o cenário é revigorado por centros como a Usina de Arte João Donato, um polo de convergência de linguagens que vão da música às artes visuais contemporâneas. Artistas como Danilo de S’Acre, Ivan Campos e Ueliton Santana representam a maturidade da produção local, explorando desde a abstração até a fotografia documental, sempre mantendo a luz e o pigmento amazônico como bússolas estéticas.

Encerramento: O Acre como Vanguarda Ambiental

Ao fim desta expedição, percebemos que o Acre oferece ao Brasil uma lição de integridade artística. Sua arte não é um acessório da história, mas sua própria voz. Do traço milenar na terra à tinta de Hélio Melo, o estado se mantém em "Estado de Arte", provando que a verdadeira inovação artística do século XXI está intrinsecamente ligada à preservação da vida e da memória da floresta.

Referências Bibliográficas 

ACRE. Secretaria de Estado de Educação e Cultura. O Acre e suas artes: catálogos de artistas acreanos. Rio Branco: Fundação Elias Mansour, 2024.

CPI ACRE. Kene Kuĩ: o grafismo Huni Kuĩ como patrimônio nacional. Rio Branco: Comissão Pró-Indígenas do Acre, 2025. Disponível em: https://cpiacre.org.br. Acesso em: 12 jan. 2026.

FERREIRA, Dalmir. Acre: Rotação de culturas e a produção contemporânea. 2014. Disponível em: https://rotacaodeculturas.wordpress.com. Acesso em: 12 jan. 2026.

IPHAN. Dossiê Geoglifos da Amazônia: Sítios Arqueológicos do Acre. Brasília, DF: Iphan, 2018.

ITAÚ CULTURAL. Hélio Melo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2024. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br. Acesso em: 12 jan. 2026.

MELO, Jaco. Ambiente Amazônico: a arte vivencial de Hélio Melo. 2008. Dissertação (Mestrado em Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2008.

 

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