Em 29 de outubro de 1969, computadores em universidades a centenas de quilômetros de distância foram interligados para fins de comunicação e pesquisa militar. Pela primeira vez na história, as máquinas de lógica individuais se tornaram máquinas de lógica coletiva. Nos Estados Unidos, surgiu a ARPANET, o primeiro passo dado em direção à esfera de informação global, a "world wide web". Primitiva pelos nossos padrões, essa proto-internet foi uma revolução comparável ao que a invenção do rádio fez à comunicação, e a televisão fez ao entretenimento em massa.
Nada é, de fato, instantâneo, mas a velocidade da informação se limita apenas ao modo como ela é transferida. Em 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica e a FAPESP fizeram as primeiras conexões por internet com universidades nos Estados Unidos. Em '95, a internet se tornou acessível ao público. Quase na virada do milênio, a vida no Brasil mudou para sempre. A era da informação tinha chegado a solo pindorama.
A informação rápida permite a colaboração quase instantânea entre estranhos em dois pontos opostos do globo. Se eu tivesse um amigo no outro lado do planeta nesse momento (que no meu caso seria no meio do oceano entre o Japão e a Oceania), é completamente plausível que, dado o uso de wi-fi por satélite ou outra infraestrutura, ele consiga trocar fotos comigo quase instantaneamente.
E então surgiu uma ideia. Pulando pormenores e um bocado de anos, chegamos a 2017, onde a autointitulada "página inicial da internet", o Reddit, faz um experimento no dia primeiro de abril chamado r/place. Tal experimento era simples: um quadro em branco digital de 1.000 pixels por 1.000 pixels (totalizando 1.000.000 de pixels quadrados de área) foi aberto ao público; qualquer pessoa poderia logar no Reddit, posicionar um único pixel da cor que quisesse em qualquer lugar no espaço, e ficaria 5 minutos impedida de colocar outro pixel, tornando quase impossível uma pessoa sozinha fazer qualquer desenho grande. Dê um pincel e tinta a uma criança, e veja ela se tornar artista. Faça o mesmo com a internet, e veja todas as culturas e subculturas online surgirem e interagirem de uma vez, como água que brota do chão. O primeiro r/place foi encerrado em 72 horas, e pode ser acessado aqui.
A premissa era simples: arte colaborativa entre estranhos. Rapidamente ganhou escopo mundial, e grupos diferentes colaboraram por todos os 3 dias para concluir suas obras, incluindo um único grupo chamado The Void (traduzido fica "O Vazio"), dedicado a pintar o quadro inteiro de preto, "comendo" as outras obras como uma ameba fagocitando uma bactéria.
O experimento foi um sucesso, e foi repetido no primeiro de abril de 2022. Dessa vez, com um tamanho expandido de 2.000px x 2.000px (totalizando 4.000.000px² de área). As regras eram iguais, porém o quadro esteve aberto por 4 dias em vez de 3. O resultado pode ser visto aqui.
E agora, um breve conto...
O ano era desconhecido, mas o século era o sexto Antes de Cristo... não que você saiba quem é Cristo e por que ele é importante. Você é um atleta, competidor nas olimpíadas e parte da elite grega. Esculpido como apenas os deuses conseguem, seu nome é Bybon. Mas seu corpo é de carne, e apenas a pedra dura uma imortalidade. Heróis como Aquiles têm seus nomes lembrados por grandes feitos bélicos, mas e você? É um atleta tão bom assim? Chateado, desanimado, você resolve tomar uma providência. Em uma rocha de 143,5Kg você grava "Bybon, filho de Phola, me levantou acima da cabeça com uma mão", e a deixa na cidade dos jogos, Olímpia.
Você morre, seu corpo se torna terra e cinza, mas a rocha continua, a ser descoberta mais de 2.000 anos depois de sua morte. Quem a achou duvida que você tenha conseguido mesmo levantar a rocha com apenas uma mão, mas não importa... seu objetivo foi cumprido. Você disse "eu estive aqui".
Pichações romanas descobertas em Pompeia costumam ser de teor sexual, mas também dizem "eu estive aqui". A figura humana, representada pela mão única de um indivíduo das cavernas, também diz "eu estive aqui", uma forma de assinatura que existe até antes da escrita. Um mercador de cobre na antiga Mesopotâmia guarda tabuletas de argila com reclamações e ameaças por seu cobre ser de baixa qualidade, o equivalente antigo a um email para o RH. O comerciante, ao guardar as tabuletas, disse "eu estive aqui".
O Resgate dos Brasileiros
O último r/place aconteceu em 2022, mas uma equipe de brasileiros resgatou a ideia e foi ainda mais além, criando o WPlace. As regras são mais abrangentes: agora, ganha-se uma "carga" a cada 30 segundos. Pense nessa carga como seu suprimento de tinta. Se chegar a zero, você é impedido de pintar mais, mas em 30s ela volta a encher.
O WPlace é um mapa do mundo todo, uma representação fiel da Terra usando bibliotecas de código aberto (opensource) de mapas online. Nele, mais de 4 trilhões de pixels compõem o novo quadro em branco para o mundo desenhar. É de graça, é global, é ao vivo e instantâneo. Nele, está a sua rua, está a linha de frente de invasões, áreas em crise humanitária, megacidades com milhões de pessoas, vastos vazios com quase ninguém. No Brasil, São Paulo e o Rio de Janeiro são tomados por escudos de times de futebol, personagens da cultura pop e referências históricas. Por um tempo, argentinos e brasileiros lutavam por território no WPlace, desenhando suas respectivas bandeiras por cima um do outro.
É no WPlace que se finaliza a máxima humana de "eu estive aqui". Como jogar uma mensagem dentro de uma garrafa ao mar, feliz no simples ato de criar arte. O esforço sisifeano da vida humana se torna prazeroso ao incorporar a arte.
Encorajo aquele que me lê a entrar no WPlace e dizer "eu estive aqui" como você preferir.
















